Open/Close Menu A Diocese de Viseu é uma circunscrição eclesiástica da Igreja Católica em Portugal

A inculturação é exigência do Mistério da Encarnação. O primeiro a inculturar-se foi o Verbo de Deus, que se fez carne para que pudéssemos perceber toda a mensagem que o Pai, através d’Ele, queria comunicar aos homens. Essa mensagem é transmitida na cultura semita (aramaica) e, posteriormente, na grega, romana, egípcia, assíria, dando origem a expressões e ritos diferentes na transmissão da fé e na mensagem revelada aos vários povos. Este fenómeno vai continuar ao longo da história com a evangelização dos povos.

Nos séculos XVI e XVII encontramos dois movimentos de sentido contrário. Com a descoberta de novos mundos, povos e culturas, sentiu-se a necessidade de continuar esta inculturação, resultado da experiência missionária longínqua, em povos de culturas tão diferentes. Em sentido contrário, com o surgir e crescer dos nacionalismos, a Europa, sobretudo a França, considerava-se o centro do mundo e, com o nascimento e crescimento do absolutismo, qualquer pensamento que não fosse europeu, era visto com alguma desconfiança.

É neste contexto que se situa a vida e ação pastoral do Padre Vicente de Paulo. Embora a sua ação pastoral se tivesse desenrolado dentro do grande hexágono do território francês, o que pensava ele sobre esta questão pastoral? Há dois aspetos a considerar. O Padre Vicente, sem utilizar a palavra, insiste muito numa inculturação que torne o Evangelho acessível aos pobres, aos camponeses. Eles são portadores de uma cultura bem diferente da elite aristocrática e burguesa. Falar claro e de maneira acessível a toda a gente, de modo que a mensagem cristã seja compreendida, é ponto de honra da sua pregação. A isto chamou ele o “Pequeno Método” ou método simples.

Nos horizontes do Padre Vicente não estavam, inicialmente, as missões “Ad Gentes”. A sua grande preocupação era o pobre povo do campo, do vasto território francês e europeu. Quando lhe aparece este desafio, através da “Propaganda Fide”, apoia-o, escolhendo o Padre Pallu, que se torna o fundador da “Sociedade das Missões Estrangeiras”.

Quando a “Providência” lhe dá um outro sinal de alargar os horizontes para lá da Europa, numa carta ao Padre Nacquart, a quem escolhe para uma nova missão, em Madagáscar, revela quais devem ser as linhas a ter presentes na evangelização de povos de cultura tão diferente: “O seu principal esforço será inculcar nessa pobre gente, nascida na ignorância do Criador, as verdades santas da nossa fé, não com razões substanciais da teologia, mas com raciocínios a partir da natureza”. Outra grande preocupação do Padre Vicente era a aprendizagem da língua do povo a quem o missionário era enviado.

Esta preocupação por inculturar a mensagem cristã, na linguagem, na organização e na estrutura da Igreja local começada pelo Padre Vicente de Paulo vai tornar-se tradição e património na Congregação da Missão. E, ao abordar este assunto, não posso esquecer o Padre Vicente Lebbe, missionário belga, juntamente com o seu confrade Padre Cotta, italiano, que influenciou o Papa Pio XI, tanto na grande encíclica missionária “Maximum Ilud”, como na nomeação dos seis primeiros bispos chineses. Fundou duas congregações religiosas chinesas, desencadeando um movimento de inculturação da Igreja Católica na China, tragicamente interrompido pela vitória do Partido Comunista chinês, em 1949, destruindo toda estrutura da Igreja chinesa.

Padre José Alves, CM

 

(Artigo publicado na edição 5/3/2026 no Jornal da Beira)

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