Quando dizemos Ano Litúrgico, não falamos do período entre Janeiro a Dezembro, o Ano Civil, ano escolar, ano económico, com dias laborais e folgas, nem da sequência de estações do ano. Não, é algo diverso. Quem participa com alguma regularidade e envolvimento na vida de uma comunidade paroquial, sente o pulsar e as características distintivas do ano civil e do ano litúrgico. Este inicia no Advento-Natal, desenvolve-se no Tempo Comum, Quaresma-Páscoa, culmina no Cristo Rei e inclui festividades. Ano litúrgico e ano civil, porém, entrecruzam-se em várias celebrações: o Natal, é ciclo litúrgico festivo, no calendário civil e eclesial.
Ainda que distintos na origem e significado, o ano civil foi inculturando muitas expressões do ano litúrgico, em manifestações artísticas e culturais, na articulação do tempo laboral e de descanso, sobretudo no domingo, nas festas de Natal e de Páscoa, e outros momentos, que são determinados pelo ano litúrgico. Ano civil e ano litúrgico, distintos e vinculados no nosso contexto sócio cultural.
De história e configuração complexa, o Ano Litúrgico é a estruturação do ano enquanto celebração progressiva da vida, ensinamentos e obra de Cristo, do seu mistério, que permanece central e essencial e pauta a vida da Igreja. O autêntico protagonista do Ano Litúrgico é Cristo, que convida a Igreja a caminhar com Ele no tempo, coordenada dentro da qual se opera hoje a salvação. Deus entrou no tempo, insuflando-lhe eternidade.
Como afirma de modo simples, claro e sintético o concílio Vaticano II na Constituição Litúrgica: «A Santa Mãe Igreja considera seu dever celebrar, em determinados dias ao longo, a memória sagrada, a obra de salvação do seu divino Esposo. Em cada semana, no dia a que se chamou domingo, faz memória da ressurreição do Senhor, que celebra, também, uma vez por ano, juntamente com a Sua Paixão, na maior das solenidades, que é a Páscoa. Distribui todo o mistério de Cristo ao longo do ano, desde a Encarnação e Nascimento até à Ascensão, ao Pentecostes e à expectativa feliz da Esperança da vinda do Senhor» (SC 102); «o domingo é o fundamento e o centro de todo o ano litúrgico» (SC 106); a Virgem Maria é venerada com especial amor (cf. SC 103), bem como os Mártires e outros Santos (cf. SC 104).
Esta clarificação conceptual da essência orgânica do Ano Litúrgico foi lenta e gradual, fruto da vivência eclesial que só depois foi oficializada. Só a partir do séc. IV começou a fixar-se. Nos primeiros três séculos, a única celebração marcada pelo ritmo do tempo foi o domingo, havendo indícios de uma celebração anual da Páscoa. No séc. II acrescentou-se a Cinquentena (Tempo Pascal) e, no séc. IV, a Quaresma, como preparação e, pouco depois, sempre gradualmente, fixa-se o Natal. Só no séc. VIII-IX, com a organização e sistematização dos livros litúrgicos para cada tempo, surge uma estrutura litúrgica organizada e sequenciada.
O Ano Litúrgico actual foi estabelecido em 1969, fruto amadurecido do concílio Vaticano II. Mais que didáctica e catequética, a sua motivação é celebrativa e vivencial e convoca-nos, cada domingo e em cada ciclo, a uma maior comunhão com Jesus. A cada ciclo litúrgico, as atitudes cristãs que lhe são próprias, celebrando no tempo do mundo o tempo de Deus.
P. José Henrique Santos