Parte II – H
Teodiceia e visão apocalíptica
Com esta reflexão concluímos o trajeto pelo Primeiro Testamento, de forma muito sucinta e abreviada. Procurámos realçar os aspetos relacionados com a teodiceia nalguns livros das Escrituras. Percebemos que, a este respeito, não existe uma visão uniforme da temática. A diversidade das circunstâncias, de sensibilidades, de épocas, não são um reflexo de contradição, mas uma complementaridade, unificada pelo mesmo ‘Elemento’ (Deus) inspirador.
A ´visão de Daniel’, está marcada pelo apocaliptismo, que contém alguns princípios subjacentes. O primeiro, é uma conceção dualista, em que o mundo contém duas forças opostas (o bem e o mal), que mantêm uma tensão ‘tempiterna’. Curiosamente, no livro de Job, Satanás é apresentado como um membro do conselho divino, não o Seu derradeiro inimigo. É com a visão apocalíptica que Satanás se transforma em arqui-inimigo de Deus. Aquele que se Lhe opõe radicalmente. Esta visão dividiu a realidade entre as forças do bem e do mal, onde o ser humano entra como uma espécie de ‘joguete’. Parece que não tem escapatória, porque a sua debilidade tende mais a ceder ao mal, que seguir as exigências do bem. Por vezes, fica a impressão que é concedida mais força ao Mal que ao Bem. Quando, na verdade, só existe um princípio Absoluto, que é Deus, Supremo Bem! Esta cosmovisão apocaliptista tende a conceber a história neste dualismo: uma separação total entre o tempo presente e aquele que há de vir. A realidade presente parece que está nas mãos do poder do mal, embora se mantenha a esperança da intervenção final de Deus que irá repor uma nova ordem cósmica.
Outro princípio do apocaliptismo é o pessimismo. Como parece que a realidade presente foi entregue ao poder do mal, nada do que se possa fazer irá alterar o rumo das coisas, com as catástrofes, epidemias, guerras. A intervenção do ser humano não terá grande relevância até que aconteça a derradeira intervenção de Deus. Esta visão compromete a história perdida, embora com um final glorioso. Não deixa de ser uma conceção fatalista e ‘ptolomaica’ da realidade.
O outro princípio da visão apocalíptica é o castigo. O mundo está marcado pela presença efetiva do mal, mas Deus vai redimi-lo. Uma espécie de dies irae, em que este mundo será resgatado, por Deus, do império malévolo. Seria como uma ‘ressurreição’ universal, prévia a um julgamento. Segundo os apocaliptistas, ninguém está livre deste julgamento, porque está para além da vida e da morte.
O último princípio desta visão prende-se com a iminência. Quando seria esta intervenção divina? Mesmo sem o saberem, o apocaliptismo responde: em breve! Isto compreende-se no contexto em que surgiram estas ideias e escritos: época de grande sofrimento e perseguição. O objetivo era encorajar e a resistir: não abandonar a fé e a esperança, pois a intervenção de Deus seria imediata, iminente.
Faremos uma pausa nesta temática, antes de uma abordagem ao Segundo Testamento.
Pe. Virgílio Marques Rodrigues