“Vede como eles se amam”
Encontramo-nos no coração das celebrações do Cristianismo, a Páscoa. A Páscoa é um acontecimento de morte e Ressurreição. A Páscoa, enraizada na nossa tradição cultural, sugere algo novo e faz ecoar a lição da passagem para uma vida renovada e orientada para os mais elevados valores humanos. Na sua gênese, o espírito pascal transmite-nos esperança, confiança, determinação e coragem para retornarmos à fonte, às origens do Cristianismo – à Igreja primitiva.
Nas celebrações pascais, agora vividas, é sugerido aos crentes cristãos que continuem a descobrir a sua inspiração de vida na Palavra testemunhada e anunciada por Jesus, em nome do Pai e confiada aos apóstolos (cf. Lc 10,16) pela ação do Espírito Santo que age e guia a Igreja.
A este respeito existe uma lição que é preciso aprender com a Igreja primitiva. Esta Igreja estava consciente da sua missão no mundo: era uma comunidade unida com propostas de amor. Em concreto, na vida dos primeiros cristãos, encontramos o testemunho e as lições fundamentais para a vida dos cristãos de hoje: homens e mulheres, adultos e crianças, famílias inteiras que deram testemunho de Cristo através das rotinas habituais da sua vida quotidiana. Envolvidos na sociedade, animando-a e imprimindo-lhe uma forma de estar irrepreensível, evangelizaram através do testemunho do seu relacionamento humano de amor fraterno, amizade e caridade – pessoa a pessoa, lugar a lugar, bairro a bairro.
O livro dos Atos dos Apóstolos, oferece-nos o quadro ideal para o estilo a ser vivido pelos cristãos e pelas comunidades de hoje. A matriz está na vida e dinâmica da comunidade dos crentes que haviam abraçado a fé (os primeiros cristãos), que eram “assíduos ao ensino dos Apóstolos, à união fraterna, à fração do pão nas suas casas e às orações” (At 2,42), e concretizavam uma comunidade de amigos e irmãos que constituía “um só coração e uma só alma” (At 4, 32). Neste modo de agir, “o Senhor aumentava cada dia mais o número dos que entravam no caminho da salvação” (At 2, 47).
A constatação daquilo que observavam e diziam os pagãos sobre as comunidades cristãs primitivas “vede como eles se amam” continua a servir de inspiração para as atuais comunidades cristãs e seus membros. A missão que se impõe às comunidades é rever o relacionamento humano que nelas se estabelece. A alegria, o perdão, o amor mútuo, o diálogo e a correção fraterna são apenas alguns indicativos para essa revisão. Não será possível acolher os afastados se aqueles que estão na comunidade vivem a desencontrar-se. Aliás, algumas comunidades não conseguem ser missionárias justamente porque vivem e forma tão apática ou conflituosa nas suas relações que afastam mais do que atraem.
Assim, é de sublinhar que não foi a eloquência dos apóstolos que atraiu os antigos para a Igreja, mas sim, a coerência do seu testemunho. Esta coerência está na base do estilo de vida das primeiras comunidades cristãs, e serve de incentivo para as comunidades e pessoas deste tempo.
Pe. João Zuzarte