Ao longo da história, diante das grandes calamidades que assolaram a humanidade, o Povo de Deus elevou sempre ao Senhor uma oração de intercessão: “Da fome, da peste e da guerra, livrai-nos, Senhor.” Hoje, perante os desafios do nosso tempo, esta súplica mantém a sua atualidade alargando-se às novas tragédias que afetam a humanidade. Dos sismos, das tempestades, das cheias devastadoras, dos incêndios que destroem florestas, habitações, vidas humanas e património comum, livrai-nos Senhor.
Os incêndios continuam, infelizmente, a afetar todos os anos as populações, provocando medo, insegurança e sofrimento, morte e perturbam a vida das pessoas, comprometendo a tranquilidade de muitas famílias, sobretudo nas aldeias, vilas e cidades mais expostas a este fenómeno.
Embora as temperaturas elevadas e outros fenómenos climáticos favoreçam a propagação dos incêndios, este problema não se explica apenas pelas condições meteorológicas, mas tem raízes mais profundas.
Exige, sobretudo, uma reflexão séria sobre a prevenção, o ordenamento e a gestão da floresta e do território. É também importante refletir sobre a utilização dos meios disponíveis e a adequada coordenação dos recursos humanos e materiais, envolvidos no combate às chamas e na proteção das populações.
O problema tende a agravar-se, se não houver um trabalho preventivo contínuo, planeado e articulado entre a Proteção Civil e as diversas entidades e instituições responsáveis.
Cuidar da natureza e da floresta, promover uma cultura de prevenção e reforçar os meios são passos essenciais para proteger a vida humana, preservar o património natural e garantir o bem comum e a tranquilidade de todos.
A Casa Comum é um dom precioso, rica na sua biodiversidade e em todas as dimensões da ecologia que somos chamados a proteger, valorizar e transmitir às gerações futuras. O cuidado da criação constitui uma responsabilidade de todos, pois dela depende a qualidade de vida das pessoas e o equilíbrio do nosso planeta e do ecossistema.
Perante a dureza dos incêndios que, ano após ano, assolam o nosso país, ouvimos frequentemente a expressão: “É sempre a mesma coisa.” Sabemos que muitos incêndios têm origem em comportamentos negligentes ou descuidados e ações criminosas. Estes fenómenos, assim como as cheias, têm vindo a transformar profundamente a paisagem e os ecossistemas, aumentando a vulnerabilidade das pessoas e dos territórios
O incêndio na Serra do Caramulo, a mais fustigada do território nacional, que teve origem no concelho de Vouzela e alastrou a outras áreas, afetando também as populações dos concelhos de Tondela, Oliveira de Frades e Águeda, mostrou-nos imagens marcantes, que fazem vir à memória incêndios anteriores em que morreram muitas pessoas.
Foram dias muito exigentes e desgastantes para os bombeiros, forças de segurança, da Proteção Civil, autarcas, profissionais de saúde, voluntários e tantas outras pessoas e instituições que estiveram na linha da frente, colocando muitas vezes a própria vida em risco para salvar vidas, habitações, empresas e património.
Uma palavra de proximidade e solidariedade é também devida às famílias, aos empresários, aos agricultores e a todos aqueles que perderam os seus bens, os frutos do seu trabalho e viram desaparecer uma paisagem única, verdejante e de extraordinária beleza natural. Que este tempo de provação fortaleça entre todos a união, a esperança e o compromisso de reconstruir, cuidar da criação e proteger a vida humana e o bem comum.
É preciso educar as populações para a prevenção positiva e proativa, da defesa dos seus bens pessoais e do bem comum.
Hoje, o fenómeno da destruição do planeta não está só nos incêndios, mas no desequilíbrio ecológico do planeta, na poluição dos solos, das águas dos rios, mares e oceanos, na destruição das florestas, no aumento de desertificação e na transformação dos lixos e resíduos domésticos e industriais. A pegada ecológica desafia todo o sistema natural, animal e humano. Perante o desafio das novas tecnologias e com o avanço da Inteligência Artificial é preciso, com inteligência e razão, reduzir os riscos do impacto, principalmente junto das crianças, dos jovens e idosos.
Os sismos na Venezuela, que provocaram tantos mortos, feridos e desalojados, desafiam-nos a rezar pelos que morreram e pelos que lutam pela vida e sobrevivência, à espera da mão amiga, fraterna e solidária.
Apelo a que cada um canalize o seu contributo através da Cáritas Diocesana ou Nacional. Não podemos esquecer o flagelo da guerra e da violência que continua a provocar mortes, destruição e refugiados. Rezemos ao Príncipe da Paz para que conceda a paz ao nosso mundo dividido, cheio de miséria e a precisar de pão.
Fomentemos a oração, a caridade e uma cultura de cuidado e de paz, acreditando na possibilidade de um mundo melhor. Este mundo depende de todos nós, da conversão dos corações e da mudança concreta de atitudes.
Ajudemos as comunidades, as populações, os bombeiros, o Exército, a Proteção Civil, a GNR, todas as autoridades locais e de segurança, assim como todos os voluntários envolvidos nesta missão de cuidado da Casa Comum a promover a paz e a tranquilidade para todos.
No dia 11 deste mês, a Igreja celebra o grande Abade São Bento de Núrsia, padroeiro da Europa. Este momento reveste-se de particular importância para uma reflexão sobre o presente e o futuro deste velho continente, berço do cristianismo e de civilizações.
+António Luciano, Bispo de Viseu