Chegou o mês de setembro, tempo de excelência para colher os frutos das sementes lançadas à terra, germinadas, regadas e cuidadas. Por todo o país, cresce a azáfama nos campos. É tempo de apanhar a fruta, fazer as vindimas e preparar os melhores néctares, para chegarem à mesa e serem apreciados por quem os valoriza.
Hoje, o setor agrícola encontra no enoturismo um parceiro cada vez mais importante. As quintas ganham uma nova vida, multiplicam-se os espaços de acolhimento e surgem festas e experiências em torno da cultura da terra, das vinhas e do vinho.
Uma ligação que valoriza também os produtos regionais e as tradições que dão identidade a tantos lugares do nosso país e trazem mais visitantes a regiões de baixa densidade populacional.
A cultura e a arte já não se procuram apenas na visita a monumentos, museus, centros históricos ou jardins. Hoje, a descoberta cultural estende-se a outros espaços de particular relevância, onde se cruzam as relações humanas, sociais, o conhecimento do território, a riqueza gastronómica e a procura de momentos de descanso e lazer.
Muitas festas e romarias associam-se a um estilo de eventos que valoriza as feiras espalhadas, hoje, por todas as vilas e cidades do território nacional.
Na reta final do verão e no início do outono, surgem as festas das vindimas, onde se respira uma cultura de celebração, de sabores e de eleição dos melhores vinhos.
É um tempo que marca o regresso das férias e o retomar do ritmo da vida, sem perder de vista os valores tradicionais da fraternidade, da solidariedade e da proximidade, que nos chegam da experiência humana concretizada nos vários ofícios ligados ao campo e ao mundo rural.
Com o passar dos anos, a evolução chegou também a este setor. Tudo se desenvolveu com a introdução das máquinas e a aplicação das novas tecnologias, que contribuíram para modernizar a indústria agrícola e torná-la mais produtiva. Contudo, apesar deste desenvolvimento, são precisas ainda hoje muitas pessoas para realizar o trabalho manual.
Torna-se, assim, importante reconhecer o contributo dos imigrantes que trabalham na agricultura, no nosso país, quer nas grandes quintas e herdades, quer junto dos pequenos agricultores das nossas comunidades.
São pessoas que devemos saber acolher e integrar, proporcionando-lhes condições dignas e justas de trabalho, nomeadamente no que diz respeito à remuneração, à habitação e à proteção social.
Um país só se desenvolve com políticas integradoras, quer no mundo do trabalho, quer ao proporcionar qualidade de vida a nível humano, habitacional, económico e social. A falta de mão de obra tem levado a algumas situações dolorosas, que podem pôr em risco a recolha qualificada dos frutos produzidos.
Todos os anos, queremos que a colheita seja abundante e contribua para o aumento da riqueza dos patrões e dos operários. “A compaixão do homem tem por objeto o próximo, mas a misericórdia divina estende-se a todo o ser vivo” (Sir 18,13).
Como dizia o Papa Francisco, na Fratelli Tutti,: “Cuidar do mundo que nos rodeia e sustenta, significa cuidar de nós mesmos. Mas precisamos de nos constituirmos como um “nós” que habita a casa comum” (FT, 17).
Cuidemos da agricultura com medidas eficazes, responsáveis e sustentáveis, para continuarmos a fazer do nosso território um verdadeiro jardim, capaz de produzir frutos abundantes, saudáveis e saborosos.
Valorizemos os nossos agricultores, homens e mulheres, também os jovens, que, com dedicação, trabalho e esperança, cultivam a terra e preservam uma herança que passa de geração em geração.
Que os frutos da terra sejam também motivo de partilha, de solidariedade e de fraternidade, lembrando-nos de que aquilo que recebemos da natureza é um dom que devemos cuidar e colocar ao serviço do bem comum.
Louvemos o Deus da Criação cuja Providência em cada dia, cuida de nós, da natureza e dos nossos campos e projetos.
+António Luciano, Bispo de Viseu