A inculturação é exigência do Mistério da Encarnação. O primeiro a inculturar-se foi o Verbo de Deus, que se fez carne para que pudéssemos perceber toda a mensagem que o Pai, através d’Ele, queria comunicar aos homens. Essa mensagem é transmitida nas diversas culturas dando origem a expressões e ritos diferentes na transmissão da fé e na mensagem revelada aos vários povos.
Nos séculos XVI e XVII encontramos dois movimentos de sentido contrário. Com a descoberta de novos mundos, povos e culturas, sentiu-se a necessidade de continuar esta inculturação, resultado da experiência missionária longínqua, em povos de culturas tão diferentes. Em sentido contrário, com o surgir e crescer dos nacionalismos, a Europa, sobretudo a França, considerava-se o centro do mundo e, com o nascimento e crescimento do absolutismo, qualquer pensamento que não fosse europeu, era visto com alguma desconfiança.
É neste contexto que se situa a vida e ação pastoral do Padre Vicente de Paulo. Embora a sua ação pastoral se tivesse desenrolado dentro do grande hexágono do território francês, o que pensava ele sobre esta questão pastoral? Há dois aspetos a considerar.
O Padre Vicente, sem utilizar a palavra, insiste muito numa inculturação que torne o Evangelho acessível aos pobres, aos camponeses. Eles são portadores de uma cultura bem diferente da elite aristocrática e burguesa. Falar claro e de maneira acessível a toda a gente, de modo que a mensagem cristã seja compreendida, é ponto de honra da sua pregação. A razão fundamental era a consciência muito viva de que o Evangelho tinha de ser anunciado em linguagem que as pessoas entendessem e as levasse à conversão, traduzida na mudança de costumes, individuais e sociais.
Quando a “Providência” lhe dá um outro sinal de alargar os horizontes para lá da Europa, numa carta ao Padre Nacquart, a quem escolhe para esta nova missão, agora em Madagáscar, revela quais devem ser as linhas a ter presentes na evangelização de povos de cultura tão diferente: “O seu principal esforço será inculcar nessa pobre gente, nascida na ignorância do Criador, as verdades santas da nossa fé, não com razões substanciais da teologia, mas com raciocínios a partir da natureza”. Hoje, diríamos, é preciso começar a evangelização a partir dos valores mais profundos desse povo, tentando descobrir as “Sementes do Verbo”, segundo a linguagem do Concílio Vaticano II.
Outra grande preocupação do Padre Vicente era a aprendizagem da língua do povo a quem o missionário era enviado. Aborda muitas vezes este assunto nas sua cartas, lamentando-se quando notava desinteresse da parte dos padres: “estou muito triste ao ver o pouco empenho que alguns revelam na aprendizagem da língua do país”. “Diz-me que alguns padres andam tristes. Compreendo porque não podem dedicar-se à sua missão: não conhecem a língua. Anime-os e acompanhe-os no estudo da língua local”.
Esta preocupação por inculturar a mensagem cristã, na linguagem, na organização e na estrutura da Igreja local começada pelo Padre Vicente de Paulo vai tornar-se tradição e património na Congregação da Missão.
Padre José Alves, CM