A organização espacial e os elementos presentes numa igreja não são meros acessórios decorativos, codificam sempre significados integradores da relação entre os fiéis e Deus. Este posicionamento é também extensivo a elementos que se vão alterando ao longo do ano, acompanhando a cadência dos tempos litúrgicos, como acontece com os arranjos florais, cuja utilização deve ser objeto de especial cuidado e estar em conformidade com as orientações expostas na Instrução Geral do Missal Romano.
No período da Quaresma a ausência de flores nas igrejas é expressiva do sentido e da vivência próprias deste tempo litúrgico. Constituindo um período de preparação para a Páscoa, assinalado pelo jejum, pela penitência, pela moderação de gestos, por um maior recolhimento e pela oração, também a não colocação de arranjos florais nas igrejas acompanha a espiritualidade quaresmal. Durante esses 40 dias, a Igreja Católica convida à sobriedade, refletindo sobre o sacrifício de Cristo e convidando os fiéis à conversão. Como parte desse espírito de recolhimento, uma das tradições litúrgicas é a ausência de flores nos altares e nos espaços sagrados. O n. 305 da Instrução Geral do Missal Romano estabelece que “No Tempo da Quaresma não é permitido adornar o altar com flores. Exceptuam-se, porém, o domingo “Laetare”, (IV da Quaresma), as solenidades e as festas deste tempo”. A ausência de flores é uma privação visual significante, integrada numa caminhada de preparação espiritual, convidando à interioridade e à experiência do deserto. Os recursos financeiros poupados em flores neste período podem ser canalizados para a renúncia quaresmal, intensificando o sentido da vivência da comunidade neste período litúrgico.
Em algumas igrejas colocam-se apontamentos de folhas verdes, sem o colorido das flores. Contudo, a ausência total de arranjos enfatiza significativamente o sentido da transição do deserto quaresmal para a exultação pascal, onde a abundância de flores retorna. A alegria da Vigília e do Tempo Pascal são assinaladas pelo regresso dos arranjos florais, que são objeto de especial cuidado. Celebra-se a Ressurreição de Cristo, o encontro com Jesus.
As flores, para além de composições estéticas, são símbolos da vida que se renova, da esperança e da alegria na salvação em Cristo. Contudo, este retorno simbólico das flores, também elas fruto da criação de Deus, não se deve revestir de excessos ou de ostentação, como indica a Instrução Geral do Missal Romano: “Na ornamentação da igreja deve tender-se mais para a simplicidade do que para a ostentação” (cap. V, n. 292. Os arranjos florais devem ser cuidadosamente pensados, quanto à sua quantidade, dimensão e forma. Os arranjos de encomenda, que tanto têm lugar na sala de conferências como na Igreja, carecem de leitura simbólica, ao invés de sublinharem o mistério pascal. Trata-se de colocar a arte floral ao serviço da liturgia, como elemento participante na estrutura do espaço, indicativa dos locais mais importantes – altar, ambão, cruz, sírio pascal -, e não impositiva, capaz de lhes tirar o protagonismo e de fazer distrair os fiéis do essencial. Se o contraste entre a ausência de flores na Quaresma e a sua Presença no Tempo Pascal assume especial significado, não deve ser esvaziado de sentido por excessos, como ocorre frequentemente com arranjos de grande dimensão em frente à mesa do altar e do ambão, ou os revestimentos do sírio pascal e da pia batismal, recorrentemente excessivos.
Fátima Eusébio, coordenadora do Departamento dos Bens Culturais da Igreja