Neste tempo da Quaresma é preciso subir ao monte santo para nos encontramos com Cristo no caminho que nos conduz à Páscoa.
A partir da leitura e meditação do versículo de Mateus (Mt 19,16), “Mestre, que devo fazer de bom para alcançar a vida eterna?”, devemos questionar-nos sobre esta pergunta e responder na plenitude da verdade em cada situação e circunstância da nossa vida.
No mundo atual em que vivemos, em que muitos cristãos se afastaram da Igreja ou deixaram arrefecer o dom da fé e da prática cristã, a Igreja é chamada por Cristo à nova Evangelização. “O Evangelho, por sua natureza, é sempre novo, portador de novidade, mas a situação social e cultural de hoje, junto de numerosas populações, onde exige uma evangelização nova, no seu ardor, nos seus métodos e na sua expressão” (cf São João Paulo II aos Bispos do CELAM, 2/3/83).
É urgente dar resposta ao processo de secularização, à indiferença religiosa atual e ao esvaziamento das igrejas. Só o amor de Cristo pode transformar a nossa vida. Todos somos chamados por Cristo para alcançar a vida eterna, deixando-nos atrair por Ele para o seguir como discípulo.
Somos a Igreja de Cristo peregrina, que mais uma vez nesta Quaresma é chamada à conversão e à renovação espiritual e pastoral. Como comunidade convocada e reunida no Espírito Santo, todos juntos como batizados, devemos fazer o caminho da libertação interior, que nos conduz à Páscoa da Ressurreição.
Cristo, de facto, vive no seu Corpo, que é a Igreja, à qual dá o Espírito Santo para que seja a sua alma e guia. Através da missão da Igreja e dos sacramentos, o cristão participa na vida nova de Cristo na obediência à vontade do Pai.
São João Paulo II, na Encíclica “O Esplendor da Verdade”, afirma: “Seguir Cristo não é uma imitação exterior, já que atinge o homem na sua profunda interioridade. Ser discípulo de Jesus significa tornar-se conforme a Ele, que se fez servo até ao dom de Si sobre a cruz (cf. Fil 2,5-8). Pela fé, Cristo habita no coração do crente (cf. Ef 3,17), e assim o discípulo é assimilado ao Senhor e configurado com Ele. Isto é fruto da graça, da presença operante do Espírito Santo em nós”.
O Batismo configura-nos radicalmente a Cristo no mistério pascal da morte e ressurreição, “reveste-nos” de Cristo (cf. Gl 3,27): “Alegremo-nos e agradeçamos, exclama Santo Agostinho dirigindo-se aos batizados: tornamo-nos não apenas cristãos, mas Cristo (…). Maravilhai-vos e regozijai-vos: tornamo-nos Cristo!”. Morto para o pecado, o batizado recebe a vida nova (cf. Rm 6, 3-11): vivendo para Deus em Jesus Cristo, é chamado a caminhar segundo o Espírito e a manifestar na vida os seus frutos (cf. Gl 5,16-25).
“Ao homem permanece sempre aberto o horizonte espiritual da esperança, com ajuda da graça divina e com a colaboração da liberdade humana. É na Cruz salvadora de Jesus, no dom do Espírito Santo, nos sacramentos, que promanam do lado trespassado do Redentor (cf. Jo 19,34), que o crente encontra a graça e a força para observar sempre a lei santa de Deus, inclusive no meio das mais graves dificuldades” (VS n.º 103).
A partir do diálogo de Jesus com o homem do Evangelho, também nós devemos acolher o convite do Mestre: “Se queres ser perfeito, vai, vende os teus bens, dá aos pobres e terás um tesouro nos céus. Então vem e segue-Me” (Mt 19, 21).
Também nesta Semana Nacional da Cáritas temos essa oportunidade. A “Cáritas, o Amor que Transforma” convida os cristãos a viver a vocação ao amor, cumprindo os mandamentos, partilhando o pão com os pobres e dando sentido à sua existência.
+António Luciano, Bispo de Viseu
(Artigo publicado na edição 5/3/2026 do Jornal da Beira)