São possíveis múltiplas abordagens a este complexo tema, nuclear para cristãos, para a humanidade. É facilmente verificável que mudámos de paradigma nos vários domínios da existência e coexistência humanas. Como repetia o papa Francisco: ‘não estamos numa época de mudança, mas numa mudança de época’. Vivemos um tempo novo, habitamos outra mundividência, da qual, e apesar de tudo, o cristianismo é elemento constitutivo. Nele se moldou a cultura ocidental, alastrando aos recantos do planeta, inculturando-se em tantos aspectos sociais e culturais, ainda prevalecentes.
Entretanto, e perante a realidade actual, é pertinente a interrogação: que cristianismo, que igreja, no presente e no futuro? Como se configurará? O post-confinamento do Covid-19 veio desvelar uma realidade que, em boa verdade, já se pressentia em muitos quadrantes geográficos, suscitando reflexões e questionamentos pastorais e teológicos. Perante a realidade, e como escrevia José Frazão em Quem quiser ganhar há-de perder, atenta à realidade, “quando se implicou no sínodo sobre comunhão, participação e missão, a Igreja busca uma forma para, de algum modo, estar à altura da força espiritual do Evangelho e da exigência da missão de o anunciar no presente” (p.76).
Tal preocupação está patente em pronunciamentos magisteriais e outros, analíticos e propositivos que foram surgindo, entre outros: Stella Morra, Ghislan Lafon e, mais especificamente, o filósofo e teólogo checo Tomás Halik, que laborou aprofundadamente o assunto em três das suas obras recentes: “O tempo das igrejas vazias” (2021) “A tarde do Cristianismo” (2022) e “ O Sonho de uma nova manhã” (2024). A Igreja e o ethos veiculado pelo cristianismo deixou de trazer novidade à conjuntura actual, daí a necessidade de reemergir numa nova forma, não tacticista ou estratégia, que podem até anular a sua essência, mas de se refontalizar, de se imbuir do Espírito fundante. “Esta renovação genuína da Igreja não surgirá nas secretárias dos bispos, nem de concílios ou conferências de especialistas, mas surgirá de poderosos impulsos espirituais, profunda reflexão teológica e coragem para experimentar” (T. Halik). Em A tarde do Cristianismo, Halik intui e arrisca quatro proposições para uma presença mais efectiva e inspiradora do cristianismo e da Igreja no mundo, como marcas fermentadoras do Reino:
– Que a Igreja se conceba como Povo de Deus na História, em movimento, em processo. E cita Francisco: “um povo vivo, dinâmico com futuro é aquele que permanece constantemente aberto a novas sínteses, assumindo em si que é diverso. E fá-lo, não se negando a mesmo, mas disposta a deixar-se mover, interpelar e enriquecer por outros e evoluir” (Fratelli Tutti 160).
– Que seja escola de vida e sabedoria, em comunidade de “vida, de oração e aprendizagem”, protegendo-a da intolerância, do fundamentalismo e do fanatismo;
– Que seja como ‘hospital de campanha’, indo “com sacrifício e coragem aonde as pessoas estão, física, social, psicológica e espiritualmente feridas, procurando sarar as suas feridas”;
– Que seja lugar de encontro e de diálogo. A Igreja precisa de voltar a ser comunidade em caminho, aprofundando o seu carácter de peregrina da fé.
Já se fez caminho! Parafraseando T. Mendonça: ‘Para os caminhantes tudo é caminho’.
P. José Henrique Santos