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Quando escutamos a palavra ‘parábola’ vêm à mente as histórias que Jesus contou. Jesus teria contado centenas de parábolas, mas os ‘Evangelhos’ apenas recolheram algumas dezenas (cf. Jo 20, 30-31; 21, 25). Não iremos abordar as parábolas de Jesus, mas considerar outras ‘parábolas’. Alguns autores extrapolam as parábolas para livros inteiros: o livro de Rute, de Jonas e de Job. Estes três livros seriam uma espécie de grandes ‘parábolas de desafio’ face ao que estava predefinido, até pela própria Palavra de Deus. São palavras que desafiam a Palavra, ou ‘Palavra contra a Palavra’ (cf. J. D. Crossan, The Power of the Parable).

O conteúdo do livro de Rute desafia uma parte da Bíblia, o livro de Jonas desafia toda a tradição bíblica e o livro de Job desafia o Deus da Bíblia. Como se entende isto?

O livro de Rute situa-se no tempo em que o povo do Antigo Testamento era ‘governado’ por líderes carismáticos, a que se deu o nome comum de ‘juízes’. Trata-se, na realidade, de um dos mais belos e extraordinários relatos do Antigo Testamento. Por ocasião de fome, uma família – Elimelec e a esposa Noemí, com dois filhos Malom e Quilion – saiu de Belém de Judá e deslocou-se até às terras de Moab. Após a morte do pai, os dois filhos casam com duas moabitas, Orfá e Rute. Morrem os irmãos e a mãe, tendo ouvido falar que a fome estava a passar decide regressar a Belém. As noras decidem acompanhá-la, mas Noemí insiste que fiquem em Moab. Orfá fica, mas Rute decide acompanhar a sogra com estas palavras: «Onde viveres eu viverei; o teu povo é o meu, teu Deus é o meu Deus.» (Rt 1, 16-17). Veja-se a intenção de identificar as origens de Rute: «Noemí voltou, e com ela Rute, a moabita, sua nora, que veio do país de Moab.» (Rt 1, 22). Duas vezes é mencionada a genealogia de Obed, filho de Rute e Boaz, que seria o pai de Jessé, e este o pai do rei David. Surge a grande questão: como é que uma moabita se torna a bisavó do grande rei David? Na verdade, a lei deuteronómica proibia que amonitas e moabitas pudessem fazer parte da ‘assembleia de Israel’ (cf. Dt. 23, 3). Estes povos não tinham sido muito acolhedores quando o povo saiu do Egipto para entrar na Terra Prometida. Mais tarde (sécs IV e V a.C.) Esdras e Neemias reforçam esta proibição nos capítulos 10 e 13, respetivamente. Nestas circunstâncias, o livro de Rute transforma-se numa espécie de ‘parábola de desafio’, situado entre a lei do Deuteronómio e a reorganização, pós-exílio persa, de Neemias e Esdras, que proibia o matrimónio entre israelitas e mulheres estrangeiras. Confronta-se a lei geral com uma situação concreta.

Como dissemos no início, trata-se da ‘Palavra contra a Palavra’. Daqui podem surgir muitas conclusões, mas intuímos que a Palavra de Deus é sempre ‘encarnada’ no tempo, na história e nas circunstâncias específicas. A Revelação não é teórica, mas entrecruza-se na história do Povo com as vicissitudes inerentes. É natural que certos episódios concretos possam deixar passar esta perceção de que estão em oposição com a norma geral. Este ‘confronto’ compreende-se não na Inspiração, mas na adequação humana à realidade histórica.

Continuaremos com Jonas.

Pe. Virgílio Marques Rodrigues

 

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