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O episódio dos discípulos em Emaús (Lc 24,13-35), que escutámos no domingo passado e que, por isso, temos bem fresco na memória, apresenta-se-nos como um importante modelo paradigmático de pedagogia divina.

Lucas parte da desolação mais profunda para chegar ao reconhecimento, alegre e feliz, do Ressuscitado. A cena abre com um movimento físico que é, simultaneamente, geográfico e existencial. Talvez mais existencial/espiritual do que propriamente geográfico, como refere D. António Couto na sua homilia, ao afirmar que “se trata menos de uma viagem transitiva sobre o mapa, e mais, muito mais, de uma viagem intransitiva nas estradas poeirentas do nosso embotado coração”.

No caminho, Jesus Ressuscitado, não se limita a instruir, mas acompanha e conduz os dois discípulos numa jornada de transformação e passagem da cegueira espiritual à luz da fé, da experiência da crucifixão e morte do seu Mestre à fé na Sua Ressurreição; da tristeza e desilusão à alegria da missão.

Nesta espécie de liturgia itinerante, que ajuda a compreender as dinâmicas do caminhar juntos, a polaridade Palavra-Eucaristia encontra uma força maior. Lucas sublinha de modo claro que, para não deixarmos o símbolo (fração do pão) na arbitrariedade, correndo o risco de perder o seu verdadeiro significado, a referência às Escrituras (todas) é essencial e deve ser sistemático, (evitando que a fé pascal seja um mero ato pessoal ou reflexão filosófico-religiosa), possibilitando, deste modo, o acesso ao mistério celebrado no sinal eucarístico, no gesto do pão partido e partilhado. Porque o conhecimento do Deus bíblico faz arder o coração e abrir os olhos (Lc 24,32). Não no campo das emoções e dos sentimentos, mas na lenta pedagogia que Jesus aplica, mostrando que a força da Palavra torna transparente e percetível o sinal/gesto.

Ao ler o texto completo (exercício que vos convido a fazer) percebemos que a pedagogia de Jesus é marcada pela a) proximidade: Jesus aproxima-se e faz-se companheiro de caminho (caminha com eles), partilhando o seu ritmo; b) escuta empática e diálogo: “Que coisas são essas…?” para trazer à tona as suas vidas e experiências; c) releitura/abertura das Escrituras (Memória): explicando as Escrituras a partir de Moisés e dos profetas, interpretando Sua morte e ressurreição como o cumprimento do plano de Deus – o que lhes faz arder o coração; d) realização de gestos (Eucarístico) que levam ao reconhecimento, como foi “a fração do pão”, um gesto familiar que abre os seus olhos, transformando Sua presença física numa presença eucarística e espiritual, provocando uma e) mudança interior de vida (recomeço): os discípulos passam de fugitivos a testemunhas da alegria da Ressurreição(fazendo-os regressar a Jerusalém), que é, também, a nossa missão.

Em jeito de conclusão, podemos dizer que Lucas sabe bem (e quer ensinar-nos) que sem formação/conhecimento bíblico e sem celebração comunitária (da eucaristia) torna-se difícil (re)conhecer o Ressuscitado.

Padre António Henrique

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