A Reconciliação é a festa do encontro!
Durante o tempo da Quaresma, que estamos a viver, vou aproveitar a “Voz do Pastor” como espaço de partilha e catequese quaresmal.
São João Paulo II publicou em Roma, no dia 2 de dezembro de 1984, a Exortação Apostólica Pós-Sinodal, Reconciliação e Penitência na Missão Atual da Igreja.
Um documento que foi bem acolhido e bem trabalhado pelos pastores e responsáveis da Igreja, mas passados 42 anos precisa de voltar a ser lembrado, estudado, meditado e posto em prática na vida dos cristãos.
A parábola do filho pródigo revela-nos que a reconciliação é, antes de mais, um dom de Deus e uma iniciativa sua. É o Pai quem toma a dianteira, quem espera, quem vigia ao longe e quem corre ao encontro do filho que regressa. Antes mesmo de qualquer justificação ou explicação, já o abraço da misericórdia foi oferecido.
A reconciliação é a festa da alegria e do encontro e nasce no coração de Deus como um dom gratuito de amor oferecido à humanidade. Não é fruto exclusivo do esforço humano, mas uma iniciativa divina, que se manifesta plenamente no mistério de Cristo. A Igreja é reconciliadora na medida em que anuncia o Evangelho da conversão e mostra ao Homem os caminhos da reconciliação e da paz. A Igreja reconciliada deve dizer como São Paulo: “Reconciliai-vos com Deus”. “A Igreja tem a missão de anunciar a reconciliação e de ser o seu sacramento no mundo. “A Igreja é sacramento, isto é, sinal e instrumento de reconciliação (…) (RP n.º 11). É nos sete Sacramentos que a Igreja nos oferece fontes de vida e instrumentos de conversão a Deus, promovendo a reconciliação entre os homens. O pecado manifesta-se de várias formas: pessoal, social, mortal e venial. “É pecado mortal aquele que tem por objeto uma matéria grave e que, conjuntamente, é cometido com plena advertência e consentimento deliberado” (RP n.º 17).
O pecado grave identifica-se, praticamente, na doutrina e na ação pastoral da Igreja, com o pecado mortal. “Com toda a tradição da Igreja, chamamos pecado mortal a este ato pelo qual o homem, com liberdade e advertência, rejeita Deus, a sua lei, a aliança de amor que Deus lhe propõe, preferindo voltar-se para si mesmo, para qualquer realidade criada e finita, para algo contrário ao ser divino” (RP nº.17). “O pecado venial não priva da graça santificante, da amizade com Deus, da caridade, nem por conseguinte, da bem-aventurança eterna; ao passo que tal privação é exatamente a consequência do pecado mortal” (RP nº.17).
No exercício da sua liberdade, o Homem pode construir um mundo sem Deus, mas esse mundo acabará por voltar-se contra o próprio Homem. Deus é a origem e o fim supremo de toda a criatura. É Deus que desvenda e ilumina o mistério do Homem (cf GS, n.º22). “O Verbo fez-se carne e da sua plenitude todos nós recebemos graça sobre graça” (cf Jo 1:14-16).
É urgente restabelecer o justo sentido do pecado e regressar ao caminho da razão e da fé, que a doutrina moral da Igreja nos ensina. “A isso levarão uma boa catequese, iluminada pela teologia bíblica da Aliança, a docilidade atenta e o acolhimento confiante do Magistério, que não cessa de proporcionar luz às consciências, e a prática cada vez mais cuidada do Sacramento da Penitência (RP nº 18).
O mistério da infinita piedade de Deus para connosco está em ter-nos enviado o Seu Filho, Jesus Cristo, como Salvador e Redentor. É grande sem dúvida o mistério da piedade: É o próprio Cristo (RP n.º 20).
Façamos deste caminho para a Páscoa, um verdadeiro itinerário de conversão pessoal e de renovação interior. Que cada dia seja uma oportunidade para regressar ao essencial, para fortalecer a oração, praticar a caridade e reconciliar-nos com Deus e com os irmãos. Convido-vos, a valorizar na vossa vida, a escuta da Palavra de Deus e o estudo do Catecismo da Igreja Católica.
“Confio ao Pai rico em misericórdia, confio ao Filho de Deus, feito homem como nosso Redentor e Reconciliador, confio ao Espírito Santo, fonte de unidade e de paz” o desejo de cada cristão celebrar nesta Quaresma o Sacramento da Reconciliação, para que lhe sejam perdoados os pecados e busque a paz interior, que este dom pascal nos oferece.
Confiemos ao Coração Imaculado de Maria, Mãe de Jesus, na qual se operou a reconciliação de Deus com a humanidade, a graça de convertermos o nosso coração e a nossa vida ao coração misericordioso de Deus.
+António Luciano, Bispo de Viseu