Se existe alguma coisa em que a Igreja deve ser perita, é precisamente em humanidade.
Sabendo sofrer com quem sofre, sabendo acolher, sabendo reconfortar e animar, a Igreja tem a obrigação de cultivar uma pastoral de proximidade junto das pessoas, bem ao estilo de Jesus Cristo. O próprio evangelho convida a imitar Jesus e a abraçar o risco do encontro com o rosto do outro, com a sua presença física que interpela, com os seus sofrimentos e as suas reivindicações, com alegria contagiosa permanecendo lado a lado.
São inúmeras as passagens bíblicas que atestam esta proximidade misericordiosa de Jesus e a compaixão que Ele revela aqueles que se cruzam com Ele, como por exemplo, as parábolas do “Bom Samaritano” (Lc 10, 25-37) e do “Filho Pródigo” (Lc 15, 11-32).
Na exortação apostólica Christus vivit, do Papa Francisco, podemos ler que «a proximidade cria as condições para que a Igreja seja espaço de diálogo e testemunho de fraternidade que fascina» (nº 38).
Sob o ponto de vista teológico-pastoral, a “proximidade” surge como um dos critérios pastorais que deve ser tido em linha de conta entre os núcleos centrais e prioritários na renovação evangelizadora da Igreja nas comunidades cristãs. Como refere a Evangelii Gaudium, «cada pessoa é imensamente sagrada e merece o nosso afeto e a nossa dedicação» (nº 274).
O Papa Francisco, na homilia que proferiu na missa crismal de 2018, foi categórico ao afirmar que a proximidade, mais do que o nome duma virtude particular, é sobretudo, uma atitude que envolve a pessoa inteira, o seu modo de estabelecer laços, de estar contemporaneamente em si mesma e atenta ao outro. O papa assumiu-a como a atitude-chave do evangelizador e que em muito serve para descrever o projeto de Jesus de instaurar o Reino de Deus: «esta é a grande opção de Deus: o Senhor escolheu ser Alguém que está próximo do seu povo».
Assim, a proximidade de Jesus ao povo, torna-se a “pedagogia da encarnação e da inculturação” na ação pastoral de cada paróquia. E este “fazer-se” próximo do outro, como critério evangélico de renovação e conversão pastoral, não pode ficar no plano abstrato e geral, mas tem de encarnar a realidade e concretizar-se na vida do cristão – a começar por aqueles que dão rosto à Igreja institucional e a configuram -, bem como na vida comunitária, onde o principal sujeito e destinatário é toda a família.
A comunidade paroquial é, desta forma, o sinal evangelizador por excelência e o instrumento privilegiado de proximidade, que pode catalisar a conversão pessoal e pastoral¸ constituindo-se, por isso, a “rampa de lançamento” da nova etapa evangelizadora com realismo e sentido prático; bem como, o campo propício para a humanização do amor, onde criar raízes, gerar laços, fazer crescer essa rede vital nos permita sentirmo-nos em casa.
A paróquia de hoje, tem de estar «em total contacto com as famílias e com a vida do povo, e não tornar-se uma estrutura complicada separada das pessoas, nem um grupo de eleitos que olham para si mesmos […] tornando-se mais próxima das pessoas, sendo âmbito de viva comunhão e participação e orientando-se completamente para a missão» (EG 28).
Pe. João Zuzarte