Na caminhada da fé, muitas vezes sentimos também o calor das dificuldades, das preocupações e dos desafios da vida. Tal como o nosso corpo precisa de água fresca e de uma brisa suave para se renovar, também a nossa alma necessita da presença de Deus, que nos consola, fortalece e dá nova esperança.
Diante desta vaga de calor precisamos de beber água fresca, que nos mate a sede, da brisa suave que nos refresque e do dom da chuva que regue os nossos campos e ajude a descer as temperaturas. Mas, para além da sede física, existe uma sede mais profunda no coração humano: a sede de amor, de paz e de sentido, que só Deus pode saciar. A busca de Deus e a procura do sentido espiritual.
A sequência da Solenidade de Pentecostes, ao invocar o Espírito Santo, a terceira Pessoa da Santíssima Trindade, lembra-nos que Ele é “Amor Ardente”; “Pai dos pobres”; “Benfeitor Supremo”; “Descanso na luta e na paz encanto, no calor sois brisa, conforto no pranto”. Na secura e na aridez das nossas vidas, o Espírito Santo é a frescura espiritual e água Viva, que refresca e suaviza a vida dos cristãos, como nos lembra São João: “Se alguém tem sede, venha a Mim e beba: do coração daquele que acredita em Mim correrão rios de água viva para a vida eterna” (Jo 7,37). Jesus referia-se ao Espírito Santo.
Nestes dias de verão, em que tantos jovens e adultos se preparam para receber o Sacramento do Crisma, queremos pedir ao Espírito Santo que nos refresque na nossa vida espiritual e renove a nossa fé com um coração mergulhado no amor infinito de Deus. Que possamos acolher os seus dons e deixar-nos transformar pela sua presença. Assim, nas provações da vida, na dureza do caminho, nas secas interiores e nas dificuldades do dia a dia sintamos sempre o doce amparo, a força interior e a consolação do seu amor.
Nesta vaga de calor e perante as alterações climáticas que se fazem sentir em Portugal e noutros países do sul da Europa, somos convidados a refletir sobre a nossa relação com a Criação. De um clima que durante muitos anos conhecemos como temperado, passamos a viver períodos de temperaturas extremas, com picos de calor e momentos de frio intenso, que nos desafiam e nos fazem questionar: Para onde caminhamos, Senhor? Como estamos a cuidar da nossa casa comum? Que mudanças somos chamados a realizar para proteger a Terra que nos foi confiada?
O Papa Francisco recordou-nos ainda que, se não mudarmos a nossa forma de viver, de nos relacionarmos e de cuidar, as consequências serão sentidas por todos.
Não estamos habituados a esta mudança tão brusca e violenta. O calor em demasia queima tudo, provoca doenças e mal-estar, destrói a natureza verdejante e cria medo, ansiedade e insegurança na vida das pessoas.
É importante adotarmos medidas preventivas, em especial com as crianças, adultos, idosos e doentes. Devemos fazer como nos pedem as autoridades e termos uma atitude de prevenção em todas as frentes e lugares.
Peçamos também, através da oração, o dom do equilíbrio para o nosso clima. Rezar nas comunidades a pedir o dom da chuva e de um clima mais favorável para todos e promover ações de educação e de formação para esta mudança inesperada é essencial para a prevenção.
É igualmente necessário criar meios para construir habitações com condições equilibradas para responder a estes desafios das alterações climáticas. Precisamos de saber procurar sombras saudáveis, espaços frescos, casas acolhedoras, beber muita água e líquidos, procurando consumir frutas e legumes frescos em abundância.
Perante os desafios da globalização, das novas tecnologias, do uso das redes sociais e da Inteligência Artificial, aprendamos a confiar em Deus, obedecendo às suas leis, respeitando a “Magnífica Humanidade”, como nos pede também o Papa Leão XIV. Cuidemos da pessoa humana com caridade e respeito mútuo, com empenho e solidariedade numa defesa concreta pela própria natureza.
+ António Luciano, Bispo de Viseu