Open/Close Menu A Diocese de Viseu é uma circunscrição eclesiástica da Igreja Católica em Portugal

Na encíclica Haurietis aquas” (1956), o Papa Pio XII afirma que “é nos textos da Sagrada Escritura […] que os fiéis hão de encontrar os mananciais límpidos e profundos do culto ao Sagrado Coração de Jesus, caso desejem penetrar na sua íntima natureza e tirar da sua piedosa meditação alimento” para a sua vida cristã e pastoral (cf. 55).

Assim, sendo o mês de junho profundamente marcado pela devoção ao Sagrado Coração de Jesus, proponho uma breve apresentação sobre o significado da protopalavra (Pe. Álvaro Balsas) Coração na Sagrada Escritura, onde é usada quase mil vezes; sendo que só raramente se refere ao órgão físico que bate dentro do peito. Na maioria das ocorrências, o termo é usado com um significado simbólico alargado e muito profundo.

Embora a resposta à pergunta “por que é que Deus nos deu um coração” possa parecer óbvia – “para amar” – na Bíblia, esta não parece ser a primeira resposta. A esta pergunta, o homem bíblico responde que Deus lhe deu um coração para compreender (Dt 29,3), pensar (Mc 2,6; Hb 4,12), conhecer e saber (Sl 90,12; Lc 24,25).

A palavra coração significa, também, memória. Pensemos que, na nossa língua, a palavra recordar é composta, na sílaba central, pela raiz da palavra coração (do latim cor, cordis). Na Bíblia, coração, memória e meditação estão intimamente ligados e em profunda relação com a fé e a fidelidade; recordemos as exortações à observância da Lei do Senhor (Dt 4,39) ou a importante declaração de fé/oração Shemá Israel – Escuta Israel – (Dt 6,4-9). Já no NT encontramos este significado bem enraizado na figura de Maria que meditava, conservava e guardava todas as coisas no seu coração (Lc 1,66; 2,19.51).

Além destes significados, a palavra coração serve, também, para indicar, não apenas o amor, mas todos os sentimentos, como alegria, desejo e gratidão (Sl 84,3); amargura, mágoa (Jr 23,9; 48,36); confiança (Sl 27); o amor de Deus por nós e o nosso amor por Deus (Dt 6,4ss).

Tendo presente esta riqueza, podemos dizer ainda que, frequentemente, a palavra coração traduz a pessoa na sua totalidade, como se percebe na oração de Ana, por ocasião do nascimento de Samuel: “exulta o meu coração no Senhor…” (1Sam 2,1) que é o mesmo que dizer “eu exulto no Senhor…”, acentuando a dimensão interior, isto é, a pessoa é vista na sua interioridade.

Por isso, na perspetiva bíblica, o coração, lugar onde Deus inscreve a sua Lei (Jer 31,33ss), designa a pessoa na unidade da sua consciência; é sede e princípio da vida psíquica profunda; é o centro de operações, das escolhas e dos projetos; é o lugar espiritual da presença de Deus, onde Ele habita, fala e educa, para que aprendamos a ver em profundidade, além das aparências (cf. 1Sam 16,7).

Não por acaso, Antoine de Saint-Exupéry afirma que “só se vê bem com o coração”. Aceitemos o convite de Jesus: “vinde […] e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração” (Mt 11,29), evitando, assim, qualquer tipo de sklerokardia – dureza de coração (Mc 10,5; 16,1; Mt 19,8). Fica o convite a (re)ler a parábola do semeador: Mt 13,3-23 e paralelos.

P. António Henrique

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