Acontece, com alguma frequência, que ganhamos maior consciencialização da nossa fé e da doutrina quando alguém, de outras sensibilidades religiosas, partilha a sua visão dos nossos princípios fundamentais. Talvez, valorizemos mais a nossa ‘casa religiosa’ quando refletimos sobre essa partilha. A frequente repetição das mesmas palavras e dos mesmos ritos pode levar a uma distração.
A este propósito vale a pena ouvir as palavras Nhat Hanh, um monge budista, a propósito das Palavras de Jesus – “Isto é o Meu Corpo, Isto é o Meu Sangue!”: «Quando estamos aí de verdade, morando profundamente no momento presente, podemos ver que o pão e o vinho são realmente o Corpo e o Sangue de Cristo e que as palavras do sacerdote são verdadeiramente as Palavras do Senhor» (Living Buddha. Living Christ, 29). Recordemos que não é um cristão que pronuncia estas palavras, mas alguém que as percebe profundamente. Continua o monge: «O Corpo de Cristo é o Corpo de Deus, o corpo da realidade essencial, o terreno de toda a existência» (29). Nhat considera que não temos que buscar este Mistério em nenhuma parte, pois o nosso ser é também a sua residência. Por isso, atesta: «O rito eucarístico anima-nos a sermos plenamente conscientes de que podemos entrar em contacto com o corpo da realidade em nós» (29). Insiste que o pão e o vinho não são símbolos, mas contêm a realidade.
A Eucaristia não é apenas um rito e palavras, mas uma Realidade que sacia a nossa existência presente. São bem incisivas as palavras deste monge: «Esta é a Sagrada Comunhão, viver na fé.
Quando levamos isto à prática, cada ‘comida’ se converte na Última Ceia. De facto, poderíamos chamá-la a Primeira Ceia, porque tudo é fresco e novo» (29). Ou seja, é por meio desta ‘Comida’ e da forma como a saboreamos, individualmente ou em comunidade, que percebemos que o Absoluto está presente. O monge prossegue a sua reflexão sobre a Eucaristia e diz: «O sacerdote celebra o rito eucarístico, com a missão de trazer vida à comunidade» (68).
Afirma que não basta dizer as palavras de Jesus corretamente, mas é precisa uma plena consciência do momento que vivemos e recebemos esta Eucaristia. Diríamos nós que não basta receber a Comunhão, mas implica estar em Comunhão, ‘desidentificar-se’ para se identificar com O que é Comungado, como experimentava Paulo: «Já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim.» (Gl 2, 20).
Comungar desta maneira é ‘tocar a Vida’ e ‘tocar o Reino de Deus’ (cf. 68). O monge confessa ter perguntado ao Cardeal Jean Daniélou se a Eucaristia poderia ser descrita desta forma? (68). A resposta foi afirmativa, disse.
É preciso pensar no que pensam os outros de nós. Talvez esta reciprocidade nos fortaleça a todos, na diferenciação e na complementaridade. Pode acontecer que só valorizemos a nossa ‘casa’ quando alguém de fora nos diz que ela é muito bela!
Pe. Virgílio Rodrigues