Open/Close Menu A Diocese de Viseu é uma circunscrição eclesiástica da Igreja Católica em Portugal

Esta memória é dedicada às dores de Maria e, de modo particular, à sua presença junto à Cruz de Jesus. A celebração, inicialmente instituída pelo Papa Pio VII, foi estendida à Igreja universal pelo Papa Pio X, em 1914, passando a ser celebrada no dia seguinte à festa da Exaltação da Santa Cruz.

No campo da fé é muito importante o exemplo e testemunho de Maria, Mãe de Jesus, que invocamos com o título de “Senhora das Dores”.

A vida de Maria, na sua disponibilidade para dizer sim a Deus e servir o projeto de Mãe do Redentor, cresceu espiritualmente unida ao mistério da Encarnação do Verbo, nascimento, vida em Nazaré, vida pública e, particularmente, no processo de condenação de Jesus à morte, onde, junto da cruz, Maria medita nas palavras da profecia de Simeão: “Uma espada de dor trespassará a tua alma” (Lc 2,35).

A dor acompanha a vida de Maria, como acompanha a vida de cada um de nós, mas com uma diferença: Maria fez das suas dores um contínuo caminho de fé, de caridade e de esperança, intimamente unida ao mistério da Salvação.

Tornou-se a primeira crente a dar ao sofrimento um sentido pascal, ligado ao de Cristo, que aceita o sofrimento como oferta agradável ao Pai pela redenção de todos. Razão tem São Paulo, quando fala dos sofrimentos da sua vida, dizendo: “Completo na minha carne o que falta à Paixão de Cristo em benefício do seu Corpo, que é a Igreja” (Col 1,24).

O sofrimento vivido à luz da fé pelos cristãos transforma a nossa vida e abre-nos o horizonte da vida nova da Páscoa. Contudo, há muita gente que, mesmo não crente, sabe dar ao sofrimento profundidade e testemunho.

São cada vez mais as pessoas que experimentam o mistério da dor, que altera o seu estilo de vida individual, familiar, comunitário, eclesial e social. O sofrimento faz parte da natureza humana e pode expressar-se de muitas formas: físico, psíquico, moral, espiritual e social, que resulta, muitas vezes, do abandono, da solidão.

Hoje em dia, a sociedade está muito vulnerável e com muitas fragilidades, que surgem em consequência de catástrofes, violências, guerras, pobreza e epidemias, que tornam o ser humano muito suscetível de contrair determinadas doenças.

A nossa relação com a vida parece estar hoje em crise. Tudo o que se apresenta como “limite” – incapacidade, doença, velhice, sofrimento e vulnerabilidade – tende a ser interpretado, antes de mais, como um defeito a corrigir, e não como um espaço onde o humano amadurece e se abre à relação. Em vez disso, devemos recordar que a pessoa não floresce apesar dos limites, mas, muitas vezes, através dos limites. Uma visão da realidade à luz da fé ajuda a reconhecer aquilo a que chamamos as contingências das coisas deste mundo.

Se por um lado, é nosso dever eliminar o sofrimento que marca a vida humana, por outro, é sensato reconhecer a nossa constitutiva finitude, sabendo que “a experiência religiosa e, em particular a fé cristã, propõem viver, sem simplificações, essa ambivalência entre a grandeza e os limites do ser humano, interpretando-a à luz da relação original e fundamental com Deus” (Cf DH, 118).

À luz do mistério dos sofrimentos e da morte de Cristo, todas as dores en­con­tram remédio e as dores de Maria são um bálsamo para as nossas próprias do­res. “Alegrai-vos, se participardes nos so­frimentos de Cristo, porque será plena a vossa alegria, quando se manifestar a sua glória” (1Ped 4,13).

Ao olharmos para a humanidade envolvida em tantos sofrimentos, devemos olhar com confiança para o amor curativo de Jesus, o Bom Samaritano, o médico divino que cura os doentes e lhes perdoa os pecados.

É preciso criar estruturas ins­ti­tu­cio­nais e dar condições pessoais, fa­mi­liares, escolares, sanitárias, eclesiais, va­­lorizando a Pastoral da Saúde, e o am­­biente de trabalho dos operários, de mo­­do a criar respostas que promovam o cui­­dado em todos os percursos da vida.

No nosso país, apesar de todas as dificuldades sentidas, o Sistema Nacional de Saúde (SNS) tem conseguido dar resposta ao sofrimento humano de todos os cidadãos que a ele recorrem. “O testemunho evangélico a que o mundo é mais sensível, é o da atenção às pessoas e o da caridade a favor dos pobres, dos mais pequenos e dos que sofrem” (João Paulo II).

Diante do mistério do sofrimento e no acompanhamento e cuidado dos doentes, procuremos, aliviar as suas dores e promover o maior bem da saúde para todos, através do acesso aos cuidados de saúde primários, e ao internamento com brevidade.

A medicina, as ciências médicas, de enfermagem e da área da saúde e diagnóstico evoluíram muito e positivamente. Hoje temos muitos recursos para minorar o sofrimento e aliviar as dores da pessoa humana. A saúde é um bem de todos, que deve ser entendida e promovida de forma holística.

António Luciano, Bispo de Viseu

CategoryBispo, Diocese, Igreja

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