Leão XIV no passado dia 22 de dezembro, no discurso à Cúria Romana por ocasião da troca de votos natalícios, afirmava: “a Igreja é, por sua própria natureza orientada para fora, voltada para o mundo, missionária. (…) A Igreja existe para convidar, chamar e reunir ao banquete festivo que o Senhor nos prepara”. Neste discurso o Papa convida, não só os membros da Cúria, mas todo o Povo de Deus a viver a sua missão em espírito de comunhão. Propõe Leão XIV que “num mundo ferido por discórdias, violências e conflitos” recoloquemos Cristo no centro e sejamos profetas com o nosso testemunho de vida.
É neste tempo e neste contexto em que vivemos, onde Deus já não é mais um pressuposto nem uma evidência para a vida das pessoas, e no qual a religião não se torna significativa, que nós cristãos devemos trabalhar e mostrar que o momento presente é uma oportunidade kairologica para reinventar e tornar atual o agir eclesial.
Perante os desafios atuais, a Igreja precisa de uma atitude pastoral renovada que invista inteligente e eficazmente no seu agir quotidiano com uma visão de futuro. Uma visão que não insista, por um lado, em permanecer no errado posicionamento do “sempre foi feito assim: porquê mudar?”, nem, por outro lado, na anulação ou menosprezo daquilo que melhor se tem feito e que constitui, ainda hoje, um ponto de partida para a transmissão da fé.
É, por isso, inevitável uma mudança de direção, sem a qual, a Igreja tornar-se-á irremediavelmente mais marginal e distante. Esta mudança exige sinodalidade e passa, em grande medida, pela tomada de consciência dos sujeitos pastorais sobre o que é essencial ou acessório (o que foi herdado da Tradição); o que se deve manter ou deixar (daquilo que hoje o mundo oferece), na participação da vida e na missão da Igreja. Um dos pontos de partida que o Papado aponta para uma Igreja atualizada e compreendida, é a mudança de linguagem e o modo de apresentar a sua mensagem kerigmática.
Em rigor, hoje o mundo não é o mesmo, está diferente, exigindo novos processos para a transmissão da fé e para o discipulado missionário. A tendência que se desenha contemporaneamente, é a de um cristianismo menos numeroso na estatística, e cada vez mais na convicção, ou seja, em decréscimo na quantidade dos seus membros, mas em progressão na sua qualidade no que concerne à coesão, à vontade, à paixão e à entrega.
Na procura de estradas para fazer ressoar o evangelho na cultura atual, ninguém tem receitas. No entanto, impera a tarefa e desafio de se fazer traduzir, com destreza e criatividade, o agir eclesial a partir da existência. Isto é, a partir de uma antropologia adequada, que coloca a pessoa no centro e é capaz de uma autêntica inculturação da fé que faça ressoar a interpelante Palavra de Deus. Desenvolvida a partir da «Gramática da Sociabilidade», esta antropologia permite à pessoa, na sua liberdade, reconhecer-se como um ser em relação com os outros no mundo e com Deus, e dá sentido aos diversos âmbitos da vida experimentados e vividos em três grandes campos humanos: «o campo da família (com o seu crescimento interno e educação dos filhos); o campo da vida social e do trabalho; o campo da saúde e dos tempos livres».
Trata-se de um novo momento que redescobre no Evangelho e no encontro pessoal e comunitário com Jesus Cristo, a beleza, a alegria e a força inspiradora e transformante, necessárias para uma mudança de rumo e de paradigma.
Diz-se que “onde há crise há Esperança”. É disto que Leão XIV nos fala para o novo ano que agora começa.
P. João Zuzarte