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A propósito da (re)leitura do pequeno livro “Só avança quem descansa”, do Pe Vasco Pinto Magalhães, sj, e desta época em que tantas pessoas gozam um período de férias, dei por mim a refletir sobre a necessidade e o direito que todas as pessoas têm de descansar, repousar, ter férias… E que bom seria se todos pudessem ter férias!

É interessante notar como desde o início esta é uma realidade essencial à vida. Não por acaso, no princípio, o próprio Deus, no sétimo dia, criou uma última coisa ao pô-la em prática: o repouso (da raiz hebraica šbt, de que deriva o substantivo Shabat (Šabbāt), que tem como primeiro significado “terminar”, “cessar uma atividade”).

Assim, a ação criadora de Deus, que se articula de forma maravilhosa e poética, na sucessão dos primeiros seis dias, culmina com um tempo de descanso, o Shabat (Šabbāt), dia da festa/descanso semanal dos judeus; Deus cessa o “Seu” trabalho e olha satisfeito para a obra criada.

Mas, Deus não só cessa de trabalhar como abençoa o tempo do descanso. No contexto bíblico, o verbo abençoar (barak) possui o significado primário de “força salvífica” que gera fecundidade, fertilidade e plenitude de vida (cf. Gn 1,22.28; 12,2-3; 27,28; Nm 6,24-26).

Além disso, Deus também santificou/consagrou o tempo de repouso, no sentido de “separado” (como indica a raiz hebraica qdš) dos seis dias em que tinha exercido a Sua ação criadora, para que este seja um tempo exclusivo de e para Deus, um dia de descanso, de festa e encontro com Deus e a Sua obra, a casa comum e os seus residentes (cf. Ex 208-11; Dt 5,12-15).

Ora, facilmente se percebe que o descanso não é uma realidade que de vez em quando podemos ter, mas é uma importante indicação divina que encontramos entre as exigências da criação.

O próprio Senhor Jesus valorizou o tempo de descanso, dando-nos o exemplo quando se retira para o monte ou para lugares solitários e desertos para rezar (Lc 5,16; 6,12) ou como naquele dia em que saiu de casa e foi sentar-se à beira mar (Mt 13,1). Recordemos como era habitual a Sua presença na sinagoga, ao sábado (cf. Mt 4,23; Lc 4,16-22.42), ensinando que tudo, incluindo o descanso, se orienta para o bem da pessoa; afinal o sábado foi feito para o homem e não o homem para o sábado (cf. Mc 2,17).

Procuremos ter um pouco de tempo livre, de descanso e/ou de férias; e que este seja um tempo, não de ociosidade (cf. 2Ts 3,11), mas gerador de alegria, de paz, de festa, de vida nova/renovação em Cristo, que nos convida sempre: “vinde a Mim… e encontrareis descanso” (Mt 11,28), “retiremo-nos para um lugar deserto e descansai um pouco” (Mc 6,31).

Neste tempo em que muitas pessoas ainda estão/vão de férias ou já foram de férias, mas conseguem um tempinho para uma ida à praia ou um passeio pelas nossas serras, fica o convite a reler o belíssimo relato da criação e a contemplar as maravilhas de Deus; porque, como diz o Pe Vasco, “só avança quem descansa” (sugestão de leitura).

P. António Henrique

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