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Monsenhor Joaquim Alves Brás

 

Pode um coxo ser padre?

Monsenhor Joaquim Alves Brás, Servo de Deus – Venerável, nasceu no dia 20 de março de 1899, na freguesia e paróquia de Casegas, concelho da Covilhã, Diocese da Guarda. Recebeu a graça do Sacramento do Batismo, início da sua peregrinação em caminho de santidade, no dia do seu nascimento.

Cresceu e viveu uma infância normal no seio da família num ambiente calmo e cristão da sua terra, onde o amor ao trabalho e à honestidade, se acrescentava o ambiente de piedade religiosa, que se vivia no seu lar. Frequentou a escola primária da sua terra, fez a catequese na paróquia. “O pequeno Joaquim Brás confessou-se pela primeira vez quando tinha sete anos, mas só veio a fazer a primeira comunhão quatro anos depois. (…) “No dia da primeira comunhão do Joaquim Brás a Mãe ofereceu-lhe um terço. O filho usou esse terço durante toda a sua vida” (D. Manuel de Almeida Trindade, O Padre Joaquim Alves Brás, Uma Vida – Uma Obra, p.26). Que belo quadro e exemplo familiar sobre o qual nos faz bem refletir durante este tempo de Quaresma, de pandemia sobre a importância e valor do testemunho da vida em família, verdadeira “Igreja Doméstica”. Prestes a iniciar o ano “Família Amoris Laetitia”, neste ano dedicado a São José de quem o Padre Brás era muito devoto, faz-nos bem ouvir, o que escreve o seu biógrafo: “Ao domingo da sua família ninguém faltava à Missa”. (…) “À noite rezava-se o terço em família, à volta da lareira quando estava frio. Era o pai que presidia à oração”. (…) “Na educação dos filhos contava mais com o exemplo do que com os ralhos ou os castigos. Nunca lhes bateu. Esse encargo, quando se tornava necessário, ficava por conta da Mãe”. (…) Poderia dizer-se que ela era a abelha-mestra da casa. Foi ela que mais influiu na formação dos filhos. Designadamente entre ela e o filho Joaquim havia uma clara afinidade” (D. Manuel de Almeida Trindade, p 26 e27).

De uma boa semente nasce uma boa árvore. Uma árvore boa, com boas raízes, bom tronco, uma folhagem frondosa e depois dá bons frutos. Neste tempo de pandemia, de provação e de dificuldades para a Igreja e sociedade, sabemos que sem boas famílias, sem famílias cristãs, não haverá bons filhos, não teremos crianças e jovens felizes, que sejam generosos na vocação, para dizer sim a Deus. Vejamos o que dizia o Padre Brás: “A melhor catequista que eu tive na minha vida foi a minha mãe”. Felizes aqueles que podem repetir estas palavras hoje. Os anos de silêncio e dor provocados pela coxalgia, passados em família na sua aldeia da Casegas despertaram nele o desejo de ser padre. Rezava muito, o mês em que esteve retido na cama organizou dois grupos de catequese um para rapazes, outro para raparigas, a quem ensinava a conhecer e a amar a Deus. Quando recuperou os movimentos e, de muletas foi capaz de se deslocar até à igreja e aí passar horas em oração e adoração, diante do Santíssimo Sacramento. Aos catorze anos voltou à Escola primária e fez o exame da 4ª classe. Aprendeu a fazer todos os trabalhos agrícolas com o pai, a quem ajudava apesar da sua deficiência na perna. Joaquim, continuava a perguntar pode um coxo ser padre? Passadas muitas dificuldades entra no Seminário do Fundão, em janeiro de 1919, por causa da pandemia chamada de pneumónica. Contrariando a vontade de seu irmão, o Padre António Alves progride tanto no seu percurso vocacional, que dele dá o monsenhor Alfeu Pires seu condiscípulo o seguinte testemunho: “Bastante inteligente, era sobretudo muito aplicado e de uma grande força de vontade para vencer as dificuldades em todo o sentido e, por isso, também nos deveres escolares, obtendo assim boas classificações no fim de cada ano” ( cf. D. Manuel de Almeida Trindade, p 41).

Apesar deste testemunho abonatório do Monsenhor Alfeu, bem sabia ele das dificuldades, que tinha principalmente na matemática e outras disciplinas. Mas com uma fé inquebrantável animado pela confiança em Deus, Joaquim Alves Brás continua o seu percurso no Seminário Menor do Fundão, vencendo as dificuldades e passando sempre no final do ano.

Entrou no Seminário de Teologia da Guarda em outubro de 1922, situado na Rua do Encontro onde esteve desde 1921 a 1931 e aí terminou o Curso de Teologia. Aqui sim, tudo correu bem e como afirmou o seu condiscípulo foi um aluno com médias bastante elevadas. O que é fraco aos olhos dos homens torna-se forte, sob a proteção de Deus. É ordenado Diácono pelo venerável Servo de Deus D. João de Oliveira Matos, Bispo Auxiliar da Guarda a 12 de julho de 1925, numa Capela da Aldeia Nova do Cabo – Fundão. Também “Venerável”, com o Processo de Beatificação e Canonização a decorrer na Congregação para a Causa dos Santos em Roma.

Recebe a ordem de Presbítero das mãos do seu Prelado, D. José Alves Matoso, Bispo da Guarda, na Capela do Paço Episcopal a 19 de julho de 1925.

Um jovem, um homem, um sacerdote, um fundador, um caminheiro da santidade, que apesar de coxo estava decidido em ser padre, nem que fosse só por um dia, “numa Diocese que passava por ser daquelas onde as raízes cristãs se encontravam mais profundamente implantadas”.

Pároco zeloso das Donas, preocupado com os problemas sociais e familiares do seu tempo, amou e sofreu, alegrou-se e testemunhou com entusiasmo a missão de Cristo, o Bom Pastor.

Confessor exemplar dos seminaristas no Seminário do Fundão, a todos cativava com a sua ternura, a misericórdia de Deus e a compreensão na caridade.

Diretor Espiritual do Seminário Maior da Guarda, confessor do Prelado, preocupado com a falta de respeito pela dignidade das empregadas de servir, nas suas vistas ao hospital às quartas-feiras começou a construir os alicerces das suas obras de bem fazer à família e à Igreja. As obras verdadeiras nascem sempre da profundidade do amor, da entrega, da oração, do sacrifício, do sofrimento e da riqueza do Mistério Pascal. Em Cristo morto e Ressuscitado encontrou a semente nova, da sua abundante sementeira apostólica pelas Diocese de Portugal, procurando fazer tudo pela dignificação, evangelização e catequização da mulher e da família.

Fundador da OPFC na cidade da Guarda, berço da Obra de Santa Zita e da futura Pia União das Cooperadoras da Família.

Promotor da vocação secular tem a alegria de no dia 19 de março de 1961, Solenidade de São José, receber a aprovação de Direito Diocesano do Instituto Secular das Cooperadoras da Família, cujo Carisma é o cuidado da “Santificação da Família e dos Sacerdotes”.

Homem de coração grande, humilde, simples, generoso, um sacerdote de alma inflamada pelo amor trinitário de Deus, pregador incansável das virtudes de Jesus, Maria e José, que apresentava como modelo de vida. Nas suas meditações falava sempre da vontade de Deus, da glória de Deus e da santidade, convidando a viver com “as mãos no trabalho e o coração em Deus”. Inflamou o coração daquelas e daqueles que se deixaram tocar pelo seu exemplo de virtudes heroicas e de santidade, tanto os membros da Obra de Santa Zita, as Cooperadoras da Família e os casais do movimento por um Lar Cristão.

Servidor das empregadas domésticas, libertador da opressão e exploração da mulher, tornou-se um profeta e apóstolo da família, um sonhador da vocação secular na Igreja ao serviço da transformação do mundo como luz, sal e fermento.

Defensor da família e dos seus valores, fez da Casa de Nazaré, um modelo e estilo de vida para todos. Na Sagrada Família de Nazaré encontrou um ideal de vida que propôs a todos e que continua neste ano de São José e “Família Amoris Laetitia”, a desafiar-nos.

Sacerdote acolhedor das dores alheias, cheio de compaixão, como o Bom Samaritano, tornou-se um pregador excelente de retiros espirituais, um confessor misericordioso como diz o Papa Francisco, diretor espiritual de seminaristas, orientador espiritual de sacerdotes, a que marcava profundamente a sua vida. Formador, educador e confessor de cada um dos membros da Obra de Santa Zita, do Instituto das Cooperadoras da Família e do movimento por um Lar Cristão. Carisma que continua atual e a precisar de ser vivido, renovado e inovado pelas suas seguidoras e por cada um de nós. Foi alguém que soube dar um lugar privilegiado à boa imprensa no seu uso em benefício do apostolado cristão.

Neste dia em que vivemos as 24 horas para o Senhor, na oração, na contemplação, na reparação e no apostolado faz-nos, bem conhecer a vida do Servo de Deus Monsenhor Joaquim Alves Brás e pedir-lhe, que interceda junto de Deus, para conceder à Igreja muitas vocações sacerdotais e de plena consagração e muitas famílias, que imitem o exemplo vivido no lar de Nazaré.

No ano dedicado a São José e o oitavo da eleição do Papa Francisco, no ministério de sucessor do apóstolo São Pedro, queremos pedir a Deus na oração uma grande proteção por intercessão de Jesus Maria e José. Deus guarde o Papa Francisco, lhe conceda muita saúde e força para conduzir a Igreja na fidelidade ao seu fundador Jesus Cristo. Como gostava de dizer Monsenhor Joaquim Alves Brás, “com Pedro”, com o Papa Francisco, com a Mãe Igreja a quem queremos servir e ser fiéis.

O mês de março é preenchido por muitas datas marcantes da sua vida. O seu nascimento, a fundação do ISCF e a sua morte. Partiu para a Casa do Pai, para descansar das suas muitas azáfamas pastorais, do seu amor às obras que fundou, à família e à Igreja, consequência de um acidente de viação faleceu em Lisboa, no Hospital de Jesus no dia 13 de março de 1966.

Exemplo e testemunho de virtudes vividas de modo heroico para maior honra e glória de Deus santificação das famílias e crescimento da Igreja.

Com o Processo de Beatificação e Canonização a decorrer na Congregação da Causa dos Santos, esperando um milagre por sua intercessão.

Continuemos a rezar, a amar, a sofrer e a confiar no Senhor. Parabéns às Cooperadoras da Família, à sua Coordenadora Geral, ao seu Conselho e a todos os membros deste Instituto Secular das Cooperadoras da Família e a todas as obras que constituem a Família Blasiana.

 

Viseu, 13 de março de 2021
† António Luciano dos Santos Costa, Bispo de Viseu
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