Diz, quem já privou ou esteve próximo de Leão XIV, que o Papa é uma pessoa serena, não eleva a voz e sabe escutar. E facilmente se constata. É exemplar e inspirador este testemunho do Santo Padre, quer na forma, quer no conteúdo das suas fortes e incisivas mensagens. A sua comunicação, reflectida e ponderada, é predisposta à escuta, o que lhe possibilita expor com autoridade temáticas profundas sem pretender impor, respeitando a diferença.
Vivemos tempos marcados por muitos ruídos sonoros, visuais, ideológicos, comunicacionais, espirituais até, que provocam radicalizações e polarizações de vária ordem, expressas em palavras e mensagens frenéticas, exuberância oral e gestual na exposição de ideias e opiniões individuais. Basta, por exemplo, seguir breves minutos de um debate parlamentar na AR, ou um diálogo televisivo sobre um tema mais ou menos relevante. A nula disposição à escuta dá lugar ao monólogo verborreico e ruidoso. Também em âmbito eclesial e pastoral se verifica, por vezes, que nem sempre o que se pretende é a clarificação e partilha do que se julga ser o melhor, mas debitar reflexão, sem escutar o que o outro opina, obstruindo-se a pretendida sinodalidade. Saber escutar tornou-se, simultânea e paradoxalmente, uma raridade e uma necessidade.
Já o autor de Eclesiastes escrevia: “Para tudo há um momento e um tempo…tempo para calar e tempo para falar” (Ecl 3, 1.7); e S. Tiago explicita: “cada um seja lento esteja pronto para escutar, lento para falar” (1Tg 1, 19). Como referia T. Mendonça: «a escuta é, talvez, o sentido de verificação mais adequado para acolher a complexidade da vida. Nós escutamo-nos tão pouco e, dentro das competências que desenvolvemos, raramente está a arte de escutar». É urgente aprimorar o sentido da escuta na relação interpessoal, característica indispensável para que, mais do que indivíduos isolados, nos sintamos e reconheçamos pessoas – condição base para uma sociedade que seja espelho do Reino de paz, justiça e amor.
“Escuta Israel” (Dt 6,4), o célebre Shemá, grande credo histórico do povo de Israel, permanece como disposição e pressuposto de fé e vivência do crente de hoje, especialmente no cristianismo, que tem no Verbo, Jesus Cristo, a Palavra feita carne, a máxima visibilidade, que queremos escutar e imitar. O Shemá tem como consequência: acreditar, celebrar e viver o que Deus comunicou e continua a comunicar.
Escutar não é a mera capacidade natural, física de ouvir, exige a vontade e o empenho de compreender, de assimilar a mensagem ouvida. Pode suceder que ouvimos e não escutamos. Escutar é, mais que recepção automática de sons, a atitude própria na vida espiritual, na oração individual, ou na assembleia litúrgica, como a do jovem Samuel: “Fala, Senhor, o teu servo Escuta” (1Sm 3,10), recuperada na regra de S. Bento: “Abre o ouvido do teu coração”.
Estamos dispostos a escutar a Palavra, o outro, ou simplesmente a ouvir, dispersos e sorvidos nas muitas preocupações, por legítimas que sejam, da vida mundanal, como refere a parábola do semeador (cf. Lc 8,11.14)? É pertinente a resposta de Jesus acerca do que é prioritário: “Felizes, antes, os que escutam a Palavra de Deus e a põem em prática” (Lc 11,28).
P. José Henrique Santos