Open/Close Menu A Diocese de Viseu é uma circunscrição eclesiástica da Igreja Católica em Portugal

Padroeiro da cidade e da Diocese de Viseu, São Teotónio, o primeiro Santo português, tem o seu dia no calendário da Igreja católica a 18 de fevereiro, data em que morreu em 1162, sendo canonizado um ano depois.

     Foi o Santo escolhido como protetor de Viseu, dá nome ao maior hospital da região, mas a sua obra e as suas virtudes são ainda pouco conhecidas, talvez pela força que exerce também no concelho a figura de São Mateus. Na verdade, é São Teotónio o Padroeiro da cidade e da Diocese de Viseu. Este ano, o Jornal da Beira foi à procura de respostas para muitas perguntas ainda por responder sobre esta figura ímpar da Igreja Católica. Que valores as pessoas podem hoje retirar para si da vida e obra de São Teotónio? Há muitas respostas na tese de mestrado em Teologia, em 2017, do Padre André Silva – um dos três últimos sacerdotes ordenado na Diocese de Viseu, a quem desafiámos para resumir, no texto que se segue.

 

     O que se sabe realmente sobre São Teotónio?     O que sei é fruto da minha dissertação de mestrado intitulada: “São Teotónio: Vida, Obra e Iconografia”. Nesta obra estão investidos três anos de pesquisa e estudo sobre São Teotónio, nosso padroeiro, e onde o relaciono neste diálogo com a história e a arte.

     Quem foi?      O nosso Padroeiro viveu num contexto de guerra e pobreza, estamos a falar da chamada “reconquista cristã” aos mouros. São Teotónio nasce em Ganfei no ano de 1082, ou seja, mais de 300 anos de instabilidade. Instabilidade que se fazia sentir não só a nível politico-geográfico, como também na própria Igreja. As Dioceses eram muito pobres, estavam sempre a ser erigidas e extintas, consoante as reconquistas, surgindo a necessária reforma gregoriana. Para levar a cabo esta reforma no condado portucalense, é nomeado Bispo de Coimbra, D. Crescónio, o tio de São Teotónio. Este leva-o para Coimbra e é lá que São Teotónio primeiro se destaca. No entanto, à morte de seu tio, em 1098, é enviado para Viseu, priorado pertencente a Coimbra, e é aqui que termina os seus estudos e é ordenado padre por volta de 1107.

As suas virtudes são admiradas por todos: clero de Viseu, clero de Coimbra, nobreza e povo. Esta admiração e respeito acabou por ficar gravada na história da nossa Diocese, pois este jovem Teotónio, apenas com 27 ou 28 anos, foi nomeado Prior da Sé de Viseu. Uma vez que não tínhamos Bispo, o prior era o responsável máximo do priorado e tinha a responsabilidade de fazer a “ponte” entre a Diocese de Coimbra e o Priorado de Viseu. A humildade e a extrema obediência de São Teotónio começam aqui a ser visíveis: São Teotónio quer recusar a nomeação, feita pelo Clero de Viseu e por todo o povo desta cidade, mas porque o seu Bispo, D. Gonçalo, Bispo de Coimbra, acredita nele e nesta sua capacidade para apaziguar e unir. São Teotónio aceita a nomeação, mas, recusando a nomeação de Bispo de Viseu, cinco anos mais tarde.

Durante o seu priorado há um cuidado extremo para com a vivência do Evangelho, e por isso, partilha com todos os mais necessitados os seus bens e os bens que lhe oferecem. São Teotónio não só levava a Palavra de Deus feita “pão” aos mais desfavorecidos, como os convidava a rezar com ele. Todas as sextas-feiras, celebrava a Eucaristia por todos os defuntos na igreja de São Miguel Arcanjo. No final desta Eucaristia, como sinal da conversão espiritual, os mais abastados partilhavam com o prior os seus bens, que este de forma discreta distribuía pelos desfavorecidos. É desta forma que São Teotónio dá vida ao Evangelho na sua vida: Enchendo o coração dos nobres com a Palavra, enche de pão a barriga dos esfomeados. Ao mesmo tempo que limpa a soberba do coração do nobre, livra o pobre da desesperança e do desânimo. Aliemos esta capacidade de amar, e ensinar a amar, à sua lealdade, obediência e inteligência e vamos perceber porque São Teotónio foi uma das personagens mais importantes no início da nossa nacionalidade.

São Teotónio foi um dos quatro principais fundadores do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, foi o primeiro Prior desta canónica, financiada pelo próprio D. Afonso Henriques. A ideia de D. Afonso Henriques foi criar um mosteiro em Coimbra que, como era natural, além de ser bastião de espiritualidade e caridade, seria também um apoio para a própria corte por ser também um bastião de cultura e educação.  Associando este facto ao de que os seus pais, Conde D. Henrique e D. Teresa, tinham sido já apreciadores e entusiastas das virtudes e capacidades de São Teotónio (enquanto Prior da Sé de Viseu), não é de estranhar que D. Afonso Henriques, depois de o conhecer e comprovar as suas competências humanas, intelectuais e espirituais, o tenha convidado a ser seu diretor espiritual e conselheiro pessoal.

Além de toda esta importância histórica, geográfica e política do mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, presidido por São Teotónio, obviamente não se ficou por aqui toda a sua importância. Ao longo do priorado de São Teotónio foi criado o Hospital de São Nicolau que dava assistência aos mais pobres e enfermos da cidade de Coimbra.

     Por que nunca quis ser Bispo?     Porque não era a vontade de Deus nem a verdadeira necessidade dos batizados. São Teotónio além de ser muito humilde e não querer nenhum cargo ou título (vemos como ele aceita com relutância ser prior de Viseu e depois mais tarde também aceita com dificuldade o mesmo cargo em Santa Cruz de Coimbra), fá-lo por perceber que era esta a vontade de Deus. E porque São Teotónio é um homem que se entrega totalmente a Deus e se renuncia a si próprio, o aceitar o cargo de prior é, ironicamente, um ato de desprendimento, renúncia e despojamento. Ao aceitar ser prior de Viseu consegue, como já expliquei anteriormente, que todo o povo de Viseu fique unido e caminhe em conjunto. São Teotónio estava incumbido de conseguir educar a Igreja Viseense segundo a Reforma Gregoriana, libertando-a e purificando-a de terríveis chagas que tanto faziam a Igreja Medieval sangrar. Estamos a falar de problemas como a simonia, isto é, a promiscuidade entre poder temporal e espiritual que leva a uma corrupção e profanação de bens espirituais e sagrados em favor de bens profanos e temporais. Se compreendermos que eram também os condes portucalenses, D. Henrique e D. Teresa, a incentivarem que São Teotónio aceitasse o episcopado, vemos como isso podia ser uma vontade vã e mundana por poder e controle da parte dos condes, para terem um Bispo favorável ao seu governo e com extrema influência junto do povo. Assim, São Teotónio seguiu aquilo que sabia ser a vontade de Deus e continuou obediente às necessidades da Igreja, livre de qualquer pretensão mundana. É por isso que na sua representação iconográfica aparece a mitra aos pés e nas suas mãos aparece o “Livro”. Este livro representa a Palavra de Deus: pela qual sempre viveu e que sempre definiu a sua vida.

     Porque é o Padroeiro da Diocese e de Viseu?     Em 1605 foi declarado padroeiro da cidade e da Diocese de Viseu, pela Sagrada Congregação dos Ritos, devido a tudo o que ele representou para a Diocese, enquanto ainda era um priorado, e para a própria cidade. A Sé de Viseu é, a par da Igreja de Santa Cruz de Coimbra, a canónica com mais referências artísticas de São Teotónio (ver texto ao lado).

Que tradições à volta dele?      Há alguns mitos e crenças que ligam São Teotónio à maior obra literária portuguesa: Os Lusíadas. Há autores que encontram muitas semelhanças entre a descrição da tempestade narrada na hagiografia de São Teotónio e a narração da tempestade do Canto V dos Lusíadas. Embora não esteja provado que Luís Vaz de Camões se tenha inspirado na viagem de São Teotónio à Terra Santa para escrever o Canto V, tal terá sido mesmo possível, uma vez que este terá tido acesso à obra hagiográfica por intermédio de D. Bento Camões, seu familiar e Geral da Ordem de Santa Cruz. Também no Canto VIII, Luís Vaz de Camões, faz referência a “Teotónio Prior” em relação à conquista de Arronches aos Mouros. Esta associação é uma tradição tardia e que terá surgido por um erro de homonímia, não terá sido São Teotónio, primeiro prior de Santa Cruz de Coimbra, até porque cronológica e historicamente isto seria impossível, mas sim um familiar direto de São Teotónio. Provavelmente, a ser verdade, terá sido o segundo prior de Santa Cruz de Coimbra, João Teotónio, sobrinho de São Teotónio. No entanto, n’Os Lusíadas, está feita esta referência direta a um prior chamado Teotónio.

Que mensagem nos deixa São Teotónio?     No ano em que somos chamados a refletir e a fazer caminho enquanto batizados neste caminho para a santidade, temos no nosso padroeiro um exemplo, claro e singelo, de alguém que percorreu esse caminho e alcançou essa herança.

São Teotónio, com a sua vida e obra, dá-nos um verdadeiro guia espiritual para vivermos os passos de Cristo: o seu amor à Palavra de Deus, a caridade e preocupação para com os irmãos, a sede de união e santidade na Igreja, a humildade com que celebrava todas as suas conquistas e todos os seus dons…

 de JB, 

Padre André Silva

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