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Observatório Pastoral

 

Era dada como morta, ou pelo menos moribunda; em vez disso, a experiência da peregrinação – a “verdadeira”, realizada a pé, que tem no Caminho de Santiago o seu protótipo – goza hoje de uma grande vitalidade. Parece não se ter desvanecido, na sociedade do bem-estar e das garantias, aquela inquietação que sempre impeliu os seres humanos a deixar a segurança das suas casas para empreender um caminho de resultados imprevisíveis. Aliás, segundo alguns, a figura da peregrinação é talvez aquela que melhor descreve a espiritualidade contemporânea, sobretudo das novas gerações: busca, mais do que posse; perguntas, mais do que certezas; nostalgia; mais do que saciedade. Uma espiritualidade que aceita o risco, que avança por tentativa e erro, que sente o fascínio dos grandes horizontes, mas também a grande fadiga dos pequenos passos.

Não foi fácil a redescoberta da peregrinação, considerada como era entre os opostos extremos da viagem sem meta e de um turismo religioso fortemente marcado por um certo ritualismo, que parece ter por pressuposto uma fé esquecida da Páscoa de Jesus Cristo (…).

Hoje, a peregrinação de Santiago, e a peregrinação a pé em geral, gozam de grande sucesso. Também na pastoral, e não só juvenil, multiplicam-se as iniciativas de pequenos e grandes grupos, de paróquias, dioceses, associações, que preveem a itinerância ao longo dos percursos históricos das grandes peregrinações cristãs, ou pelos mais modestos trilhos traçados localmente pela piedade popular (…).

Compreendida desta maneira, a peregrinação de Santiago tornou-se uma via através da qual toda uma série de necessidades espirituais do ser humano ocidental – que não podem ser negadas, mas que não encontram lugar no interior dos vários sistemas em que a sua vida está esboroada – são reconhecidas e vivem. Entre elas, a necessidade fundamental de dar um sentido à vida e à morte, ao caminho quotidiano da pessoa. E este é o dom que ao longo dos séculos o Caminho ofereceu a quem correu o risco de o percorrer: uma direção, uma via e uma meta que em Cristo se tornam um só.

Se a motivação religiosa ou a simples curiosidade impelem o peregrino ao Caminho, é a memória que conserva para sempre aquilo que se viu e aquilo que se fez. Um conhecimento do mundo ativo, ligado a uma experiência pessoal inesquecível e inserida num sistema de valores, entre os quais se destacam a fraternidade entre peregrinos e o serviço e a caridade cristã em relação a eles. O conjunto destes fatores dará um significado particular a quanto se viu, sentiu e aprendeu, e constituirá uma adesão pessoal inseparável da sua experiência humana.

A peregrinação a Santiago é sobretudo isto: uma viagem fora de si, fora do quotidiano, mas também e sobretudo dentro de si. O peregrino viaja fora e dentro: ao longo de um território geográfico e ao mesmo tempo “in interiore animae”. Precisamente por isso radica profundamente na memória coletiva (europeia e não) o tema da busca de Deus, tornado possível e acessível no interior de um imenso lugar santo constituído pelo reticulado das estradas de peregrinação, pelos milhares de igrejas, capelas, sacrários que o consagram e que acompanha os passos dos peregrinos.

 

Paolo Asolan

Presidente do Instituto Pastoral

Redemptor Hominis – Roma

CategoryDiocese, Pastoral

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