Open/Close Menu A Diocese de Viseu é uma circunscrição eclesiástica da Igreja Católica em Portugal

“A ignorância da Escritura é ignorância de Cristo”. Esta famosa expressão de São Jerónimo, celebrado a 30/09, recorda-nos o objetivo da leitura/escuta da Palavra de Deus: conhecer a Cristo e por Ele, no Espírito Santo, entrar em diálogo com o Pai.

Quando o homem se abre à Palavra de Deus, deve, antes de tudo, dispor-se a abandonar a pressa e o barulho para entrar no espaço do silêncio sagrado e encontrar a paz do coração, procurando criar as melhores condições para esse diálogo.

Nesse sentido, a Constituição Dogmática Dei Verbum, do Concílio Vaticano II, apresenta a Sagrada Escritura, lida na Tradição da Igreja, como o espaço privilegiado de encontro em que Deus continua a falar aos homens e mulheres, de todos os tempos, a fim de que, ouvindo-O, possam conhecê-lO, amá-lO e caminhar segundo a Sua vontade.

Para que este encontro dialógico pudesse acontecer, Deus, servindo-se de vários homens inspirados pelo Espírito Santo – autores inspirados ou escritores sagrados (cf. DV 11) – escolhe falar/comunicar-Se através de linguagens humanas, «como outrora o Verbo do eterno Pai se assemelhou aos homens tomando a carne da fraqueza humana» (DV 13). Portanto, na Sagrada Escritura, na riqueza do Seu amor, Deus fala aos homens, «por meio dos homens [inspirados] e à maneira humana» (DV 12), como amigos, para os convidar e admitir à comunhão com Ele (cf. DV 2), tocar a sua vida presente, iluminar os seus passos e as suas decisões. Como diz Santo Agostinho: «Quando lês [a Palavra de Deus], é Deus que te fala; quando rezas, és tu que falas a Deus».

Considerando a Igreja como “casa da Palavra”, o Papa Bento XVI na Exortação Apostólica Verbum Domini nº 52, recorda que «a Liturgia sagrada constitui o âmbito privilegiado onde Deus nos fala no momento presente da nossa vida: fala hoje ao seu povo, que escuta e responde», pois «é Cristo que fala, ao ser lida na Igreja a Sagrada Escritura» (SC 7). Contudo, não se pode desvalorizar nem diminuir a leitura orante da Palavra de Deus – lectio divina – como elemento fundamental e estruturante da vida espiritual dos batizados (cf. VD 86); ressalvando que não se caia no risco ou na tentação de se fazerem abordagens individualistas, uma vez que o texto sagrado visa sempre a construção e a comunhão eclesial. Assim, tendo em conta o vínculo vital e profundo existente entre a Palavra de Deus e a Igreja é essencial que «a Sagrada Escritura [seja] lida e interpretada com o mesmo espírito com que foi escrita […] tendo em conta a Tradição viva de toda a Igreja» (DV 12).

Nascida sob a inspiração do Espírito Santo, a Bíblia nasce do Povo de Deus e destina-se ao Povo de Deus. Portanto, «é na vida e na fé da Igreja que esta encontra o Seu habitat e o espaço onde revelar o seu significado e manifestar a sua força» (Papa Leão XIV), tornando-se este o critério fundamental para o enquadramento da prática da lectio divina, qual apelo inscrito no lema do Programa Pastoral da nossa diocese para o biénio 2026-2028: Escuta e caminha. (continua…)

Padre António Henrique

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