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Verificámos, no artigo anterior sobre o livro de Rute, que esta ‘parábola’ desafiava um especto da legislação do Deuteronómio (cf. J. D. Crossan, The Power of the Parable). Iremos, agora, constatar que o livro de Jonas, praticamente, desafia, pelo menos, dois fundamentos da tradição bíblica: a bondade e a obediência dos profetas, por um lado e, por outro, os gentios são maus e
desobedientes.
Curiosamente, Jonas possui todas as caraterísticas opostas à ideia comum que temos dos profetas. O livro inicia com o típico mandato divino de ir até Nínive, a fim de denunciar a maldade existente na cidade. Jonas reage indo em sentido contrário, fugindo pelo mar. Deus reage provocando uma tempestade.

Os tripulantes reagiram rezando aos seus deuses. Jonas não reza ao seu Deus – compreendemos porquê -, mas procura dormir tranquilo. Os marinheiros perceberam que a tormenta estava relacionada com Jonas e chamam-no à atenção. Até aqui resulta uma constatação surpreendente: os marinheiros pagãos mostram mais temor a Deus que o próprio profeta!
O desafio começa a delinear-se. Apesar do profeta ser recalcitrante, Deus não mostra qualquer ira, mas oferece-lhe um ‘transporte alternativo’, fazendo com que um ‘peixe grande’ o transporte são e salvo até à praia.

No capítulo 2, Jonas reconhece a grandeza e a bondade de Deus e, logo a seguir, Deus repete o seu mandato: «Levanta-te, e vai a Nínive, a grande cidade, e proclama a mensagem que eu te ordeno.» (Jn 3, 2). Desta vez, o profeta cedeu e proclamou o sermão mais curto da história e mais devastador: dentro de quarenta dias Nínive será destruída! (cf. Jn 3, 4). Face a tão pequeno anúncio, surge a maior conversão bíblica: a cidade inteira escutou as palavras do profeta e mudou.

O que seria de esperar do profeta perante o êxito da ‘sua pregação’? A autenticidade do livro não esconde a verdade: em vez de se alegrar, o profeta ficou triste e deveras descontente! (cf. 4, 1). Mais uma vez, este episódio mostra a grande diferença entre a atuação de Deus e a do ser humano: Deus é imprevisível, ao contrário do ser humano. Por outro lado, mostra a imagem
de um Deus Universal, não um exclusivo do povo do Antigo Testamento; um Deus Criador de todos e que a todos quer salvar. Jonas representa uma visão exclusivista de Deus que protege os ‘bons judeus’ e castiga os ‘maus ímpios’. A lógica de Deus não é tão manifesta como esta mentalidade. Os assírios eram uma espécie de arqui-inimigos dos israelitas.

Sargão II – 722 a 705 – tinha destruído o Reino do Norte de Israel, em 721. Seu filho Senaquerib tentou o mesmo com o Reino do Sul, mas não conseguiu. A Assíria era, para os judeus, uma ‘nação maldita’ que merecia ser duramente castigada. Outros profetas (cf. Is 10, 5; Zac 10, 11) já tinham anunciado esta vontade de destruição, que historicamente aconteceu no ano 612 a. C. com a vinda dos medos e babilónios. Esta ´parábola’ de Jonas evidencia a paciência de Deus face aos comportamentos conflituosos da humanidade. Continuaremos com Job.

Pe. Virgílio Rodrigues

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